quinta-feira, 9 de outubro de 2008

SITUAÇÃO DE PRESSÃO

“Você quer um suquinho, meu filho? Descanse um pouco, não se deve estudar horas a fio sem oxigenar o cérebro”. “Está tudo bem mamãe”. Responde o garoto irritado com as freqüentes interrupções da mãe.

O pai chega da feira, naquele ensolarado dia, em uma pacata cidade do interior, com uma braçada de frutas e legumes. Deposita-os sobre a mesa da cozinha e sobe os degraus-dois a dois- para o quarto de estudos do filho, para saber se ele quer alguma coisa. “Obrigado, papai”, responde o garoto imerso em seus livros. Mesmo assim, desce voando, e prepara uma vitamina reforçada. “Estudar despende muita energia”, comenta com a esposa. Volta ao quarto e oferece ao filho o que ele chama de “levanta defunto”: uma mistura de frutas, cereais, farinhas, leite e até fígado de bacalhau. Pasmem! Mas o filho recusa-se a tomar a tal “gororoba”, para a tristeza de seu empenhado pai.

Ah, os pais, às vésperas de um vestibular... Quantos cuidados, quantas esperanças, quantos sonhos depositados em seus filhos. Transferem suas ansiedades, perspectivas, vivências e, sobretudo, suas incertezas para os ombros deles. Pobres jovens! Não podem falhar, afinal aquele cursinho foi muito caro, dava para trocar o carro da casa, comprar vários eletrodomésticos, fazer uma viagem; enfim, realizar muitos desejos. Isso torna gigante a responsabilidade desses jovens. Mas qual!Há milhões nessas mesmas condições, é uma disputa titânica, pensam muitos. Mal sabem eles que a maior disputa, abrir caminhos e vencer a corrida pela vida, já ganharam.

Mas o senhor Pedro volta a insistir para que seu “empreendimento” experimente a milagrosa vitamina. O filho não entende que, mais que uma vitamina, estão ali misturados os sonhos e as esperanças do pai... Num gesto de solidariedade toma, com os olhos fechados aquela mistura meio esverdeada-é tanta coisa ali que não é possível precisar o sabor. Satisfeito, o pai desce para a sala de estar, acende um cachimbo e o degusta, com a alma leve. Seu menino está alimentado. E fortalecido.

Os dias correm, as noites voam e ... Pronto, chega o grande dia! O despertador toca às 5h da manhã, a mãe já está acordada, não dormira a noite toda. O pai sequer roncara, sintoma de um sono leve, preso e tenso. A avó telefona às 6h e diz que está a caminho trazendo o bolo de chocolate, o preferido do Paulinho. A casa se agita, o cachorro acorda, o papagaio balbucia seu primeiro “loro” e a mesa já está posta. “Vá acordar o Paulinho”, pede o senhor Pedro a Isaura, a mãe. Mas quando chega ao quarto ela se depara com o filho sentado na cama, olhos fundos e perdidos. Pesa-lhe o corpo. Precisa fazer duas tentativas para se levantar; é o peso da responsabilidade, da resposta às expectativas da família, do retorno aos investimentos do pai, do sacrifício da mãe; enfim, terá que se agigantar diante de si mesmo para suportar tamanho fardo.

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