MÃE! MÃE! MÃE! A voz de um rapaz às 6h30m quebra o silêncio de uma manhã chuvosa,
numa pacata cidade praiana. Após os primeiros gritos faz-se um breve silêncio e, novamente, os mesmos apelos são feitos, ora com voz alterada, ora com voz cansada e chorosa. A chuva é suave, mas persistente, dessas que molha devagarzinho até a alma. O tempo, mandatário da situação, passa bem devagar tornando os quinze minutos de espera eternos.
Uma senhora bem velha, cabelos brancos e meio arqueada caminha em direção da voz, vem de uma casa que fica nos fundos de um terreno grande, caminha devagar por entre as pedras que pavimentam a trilha. Apóia-se em uma bengala que lhe dá sustentação.
O rapaz, um homem feito, muito magro, rosto encovado e gestos imprecisos, caminha de um lado para outro impaciente, parece que tem algo urgente a resolver. Para ele, a distância é imensurável, a mãe nunca chega e volta a gritar: “Anda mãe, vem logo”.
Ao chegar perto do rapaz a velha senhora pergunta o motivo da urgência e da gritaria que ele está fazendo em frente ao portão de sua casa. “Eu tô com fome, a senhora não tá vendo? Preciso de dinheiro”. “Dinheiro eu não tenho, vou lhe arranjar algo para comer”, responde a senhora. “Mas mãe, eu preciso resolver aquele problema, me dá um dinheiro, qualquer coisa”. Volta a insistir o rapaz. “Não adianta, eu não tenho dinheiro”. Tenta convencê-lo a pobre senhora. O rapaz se enfurece e a chama de desalmada e outros adjetivos horríveis. Diante disso a mãe se volta e o deixa falando sozinho.
Nesse momento surge um jovem, que também mora no mesmo terreno- algumas pessoas moram nesse local, alugam quartos- e o enxota dali com um pedaço de madeira, e ameaça espancá-lo se ele não deixar o local. Diante disso ele vai embora falando coisas desconexas.
No dia seguinte, por semanas e meses, a cena se repete, pelo menos três vezes ao dia. Não há um horário estabelecido, ele aparece muito cedo como tarde da noite, sempre gritando e exigindo a presença da velha senhora que ele chama de mãe, mas na verdade, ela é sua avó. Com humor alterado, ora pede que ela venha atendê-lo com voz suplicante, ora volta a exigir aos gritos que ela lhe dê algum dinheiro, tornando-se agressivo diante de uma negativa. A avó, cansada e desolada, sentindo-se impotente, cede, frente aos argumentos do neto e lhe dá uns trocados, além da comida.
Essa situação se torna a regra, então ele passa a exigir dinheiro todas as vezes que ali vem para pegar o alimento. A cena é muito triste, um rapaz no auge da juventude, no auge da força de trabalho, transformado em farrapo humano. Do outro lado, uma senhora idosa, merecedora de descanso pelos anos vividos sofre com a decadência do neto.
Alguns dias se passam, depois semanas e por fim, meses. Não se ouve mais a voz do pedinte. A velha senhora vai por vezes ao portão, mas o neto não aparece. A droga venceu. A mesma que está exterminando com uma geração de jovens em todas as partes do mundo.
domingo, 9 de janeiro de 2011
quinta-feira, 9 de outubro de 2008
UM PASSEIO NO PARQUE
Tinha tudo para dar certo. A começar pelo belo sol com seu olho vermelho e brilhante. Era só caprichar um pouco no visual e ir à luta. Primeiro teria que traçar algumas estratégias para não falhar, ou pelo menos, não inteiramente. A escolha do lugar parecia perfeita: parque Ibirapuera da cidade de São Paulo.
Lugar descontraído, cheio de gente bonita, esportistas de fim de semana, enfim, perfeito para lançar seu charme e arrebanhar, quem sabe, aquela que iria fazê-lo feliz pelo resto da pouca vida que ainda lhe resta.”Muitas mulheres solitárias como eu caminham nesse parque a procura de algum desejo escondido”. Pensa o bom senhor.
Devidamente paramentado com um conjunto esportista, e boné, que além de proteger a calvice já bem delineada confere um certo charme ao visual. Entra no parque e, dentro do território escolhido, aciona os mecanismos de sedução que acredita podem funcionar: andar cadenciado, corpo ereto e olhar sedutor. Tão imbuído está o pobre que não percebe um bando de garotos de patins vindo em sua direção. Numa fração de segundos, lá está o “sedutor” no chão. Com a frase: “olha por onde anda cara”, ainda tinindo em seus ouvidos, levanta-se com dificuldade e pensa: “sem nenhuma pretensão de corrigir a obra Divina, acho que ELE cochilou quando decidiu não colocar bom senso e juízo nos seres humanos desde seu nascimento”.
Refeito do susto, continua sua caminhada, mas qual! Lá vêm um outro bando de jovens pilotando, com a maestria que a idade lhes confere, suas coloridas bicicletas. Passam voando, deixando uma rajada de vento e burburinho no ar. Inseguro e amedrontado o bom velhinho pensa: “é, parece que escolhi o lugar errado”. Aquele caminhar descontraído sem pressa está definitivamente comprometido. “É interessante pensar que um parque é denominado lugar ‘público’, mas para qual ‘público’”? Pensa o senhor, e ajeitando a roupa e o boné, dirige-se ao portão de saída com sabor amargo na boca, sabor de desrespeito, humilhação e impotência.
Lugar descontraído, cheio de gente bonita, esportistas de fim de semana, enfim, perfeito para lançar seu charme e arrebanhar, quem sabe, aquela que iria fazê-lo feliz pelo resto da pouca vida que ainda lhe resta.”Muitas mulheres solitárias como eu caminham nesse parque a procura de algum desejo escondido”. Pensa o bom senhor.
Devidamente paramentado com um conjunto esportista, e boné, que além de proteger a calvice já bem delineada confere um certo charme ao visual. Entra no parque e, dentro do território escolhido, aciona os mecanismos de sedução que acredita podem funcionar: andar cadenciado, corpo ereto e olhar sedutor. Tão imbuído está o pobre que não percebe um bando de garotos de patins vindo em sua direção. Numa fração de segundos, lá está o “sedutor” no chão. Com a frase: “olha por onde anda cara”, ainda tinindo em seus ouvidos, levanta-se com dificuldade e pensa: “sem nenhuma pretensão de corrigir a obra Divina, acho que ELE cochilou quando decidiu não colocar bom senso e juízo nos seres humanos desde seu nascimento”.
Refeito do susto, continua sua caminhada, mas qual! Lá vêm um outro bando de jovens pilotando, com a maestria que a idade lhes confere, suas coloridas bicicletas. Passam voando, deixando uma rajada de vento e burburinho no ar. Inseguro e amedrontado o bom velhinho pensa: “é, parece que escolhi o lugar errado”. Aquele caminhar descontraído sem pressa está definitivamente comprometido. “É interessante pensar que um parque é denominado lugar ‘público’, mas para qual ‘público’”? Pensa o senhor, e ajeitando a roupa e o boné, dirige-se ao portão de saída com sabor amargo na boca, sabor de desrespeito, humilhação e impotência.
THE ONIX
Wandering along the streets, looking at the ground, with tangled thoughts, she felt completely lost although were people everywhere. How deeply she wanted these thoughts dispelled! But the way she had been looked at on that morning by the students made her feel the most deject human being in the world.
They stared at her for a long time, but said nothing. Nothing that could be heard, but soon the whispering began: “Do you believe she´ll be accepted?” “How can they agree with that?” Their voices were quiet, dry and cold. Something inside her breast got bigger and bigger and she had to swallow it, so as not to burst into tears.
Time passed. It seemed a year since she had entered the classroom at the University. Sitting at her desk she saw nothing around her. The cold indifference of her classmates iced her as rigid as a stick. When the bell rang she felt her heart in her throat. It was her desire to go out and disappear immediately, but her feet were stuck on the ground and any effort made would be useless.
“My childhood days are brought to my mind and with them one of those children´s tale, especially “The Ugly Duckling”. I feel myself akin to it this moment: rejected and set aside by everyone. It´s useless try to fight against fate. University education was not for me. How could I deceive myself this way? All lost! I have to change my course”.
Stepping hard, she set out for a new life. The bright lights of a night club twinkled, inviting her. With determination her hands, which now took the command of her mind, opened the door. Everybody looked at her with lustful eyes.With loathing.
Suddenly a person she had never seen before came towards her, looked at her and smiled softly. Rejoicing, she discovered that there were still affectionate persons around who could consider her a human being. This, however, was more than she could believe.
He encouraged her with his eyes, but she did not respond; her complexion changed and all her embarrassment returned. Finally, he took her out gently. Questions arose from him and after waiting patiently for some time, the answers came one by one, and he realized that she could hardly be more deeply hurt. Not a single word of complaint was heard.
Something tender was born between them as she began to fight against her shyness little by little, overcoming her deep unhappiness. Finally she knew the greatest strength in the world: love. The only way to freedom: sharing.
Nowadays, people stop and stare at them. Lots of them incredulous, some indignant, a few touched by the contrast of their skins tightly interlaced.
They stared at her for a long time, but said nothing. Nothing that could be heard, but soon the whispering began: “Do you believe she´ll be accepted?” “How can they agree with that?” Their voices were quiet, dry and cold. Something inside her breast got bigger and bigger and she had to swallow it, so as not to burst into tears.
Time passed. It seemed a year since she had entered the classroom at the University. Sitting at her desk she saw nothing around her. The cold indifference of her classmates iced her as rigid as a stick. When the bell rang she felt her heart in her throat. It was her desire to go out and disappear immediately, but her feet were stuck on the ground and any effort made would be useless.
“My childhood days are brought to my mind and with them one of those children´s tale, especially “The Ugly Duckling”. I feel myself akin to it this moment: rejected and set aside by everyone. It´s useless try to fight against fate. University education was not for me. How could I deceive myself this way? All lost! I have to change my course”.
Stepping hard, she set out for a new life. The bright lights of a night club twinkled, inviting her. With determination her hands, which now took the command of her mind, opened the door. Everybody looked at her with lustful eyes.With loathing.
Suddenly a person she had never seen before came towards her, looked at her and smiled softly. Rejoicing, she discovered that there were still affectionate persons around who could consider her a human being. This, however, was more than she could believe.
He encouraged her with his eyes, but she did not respond; her complexion changed and all her embarrassment returned. Finally, he took her out gently. Questions arose from him and after waiting patiently for some time, the answers came one by one, and he realized that she could hardly be more deeply hurt. Not a single word of complaint was heard.
Something tender was born between them as she began to fight against her shyness little by little, overcoming her deep unhappiness. Finally she knew the greatest strength in the world: love. The only way to freedom: sharing.
Nowadays, people stop and stare at them. Lots of them incredulous, some indignant, a few touched by the contrast of their skins tightly interlaced.
SITUAÇÃO DE PRESSÃO
“Você quer um suquinho, meu filho? Descanse um pouco, não se deve estudar horas a fio sem oxigenar o cérebro”. “Está tudo bem mamãe”. Responde o garoto irritado com as freqüentes interrupções da mãe.
O pai chega da feira, naquele ensolarado dia, em uma pacata cidade do interior, com uma braçada de frutas e legumes. Deposita-os sobre a mesa da cozinha e sobe os degraus-dois a dois- para o quarto de estudos do filho, para saber se ele quer alguma coisa. “Obrigado, papai”, responde o garoto imerso em seus livros. Mesmo assim, desce voando, e prepara uma vitamina reforçada. “Estudar despende muita energia”, comenta com a esposa. Volta ao quarto e oferece ao filho o que ele chama de “levanta defunto”: uma mistura de frutas, cereais, farinhas, leite e até fígado de bacalhau. Pasmem! Mas o filho recusa-se a tomar a tal “gororoba”, para a tristeza de seu empenhado pai.
Ah, os pais, às vésperas de um vestibular... Quantos cuidados, quantas esperanças, quantos sonhos depositados em seus filhos. Transferem suas ansiedades, perspectivas, vivências e, sobretudo, suas incertezas para os ombros deles. Pobres jovens! Não podem falhar, afinal aquele cursinho foi muito caro, dava para trocar o carro da casa, comprar vários eletrodomésticos, fazer uma viagem; enfim, realizar muitos desejos. Isso torna gigante a responsabilidade desses jovens. Mas qual!Há milhões nessas mesmas condições, é uma disputa titânica, pensam muitos. Mal sabem eles que a maior disputa, abrir caminhos e vencer a corrida pela vida, já ganharam.
Mas o senhor Pedro volta a insistir para que seu “empreendimento” experimente a milagrosa vitamina. O filho não entende que, mais que uma vitamina, estão ali misturados os sonhos e as esperanças do pai... Num gesto de solidariedade toma, com os olhos fechados aquela mistura meio esverdeada-é tanta coisa ali que não é possível precisar o sabor. Satisfeito, o pai desce para a sala de estar, acende um cachimbo e o degusta, com a alma leve. Seu menino está alimentado. E fortalecido.
Os dias correm, as noites voam e ... Pronto, chega o grande dia! O despertador toca às 5h da manhã, a mãe já está acordada, não dormira a noite toda. O pai sequer roncara, sintoma de um sono leve, preso e tenso. A avó telefona às 6h e diz que está a caminho trazendo o bolo de chocolate, o preferido do Paulinho. A casa se agita, o cachorro acorda, o papagaio balbucia seu primeiro “loro” e a mesa já está posta. “Vá acordar o Paulinho”, pede o senhor Pedro a Isaura, a mãe. Mas quando chega ao quarto ela se depara com o filho sentado na cama, olhos fundos e perdidos. Pesa-lhe o corpo. Precisa fazer duas tentativas para se levantar; é o peso da responsabilidade, da resposta às expectativas da família, do retorno aos investimentos do pai, do sacrifício da mãe; enfim, terá que se agigantar diante de si mesmo para suportar tamanho fardo.
O pai chega da feira, naquele ensolarado dia, em uma pacata cidade do interior, com uma braçada de frutas e legumes. Deposita-os sobre a mesa da cozinha e sobe os degraus-dois a dois- para o quarto de estudos do filho, para saber se ele quer alguma coisa. “Obrigado, papai”, responde o garoto imerso em seus livros. Mesmo assim, desce voando, e prepara uma vitamina reforçada. “Estudar despende muita energia”, comenta com a esposa. Volta ao quarto e oferece ao filho o que ele chama de “levanta defunto”: uma mistura de frutas, cereais, farinhas, leite e até fígado de bacalhau. Pasmem! Mas o filho recusa-se a tomar a tal “gororoba”, para a tristeza de seu empenhado pai.
Ah, os pais, às vésperas de um vestibular... Quantos cuidados, quantas esperanças, quantos sonhos depositados em seus filhos. Transferem suas ansiedades, perspectivas, vivências e, sobretudo, suas incertezas para os ombros deles. Pobres jovens! Não podem falhar, afinal aquele cursinho foi muito caro, dava para trocar o carro da casa, comprar vários eletrodomésticos, fazer uma viagem; enfim, realizar muitos desejos. Isso torna gigante a responsabilidade desses jovens. Mas qual!Há milhões nessas mesmas condições, é uma disputa titânica, pensam muitos. Mal sabem eles que a maior disputa, abrir caminhos e vencer a corrida pela vida, já ganharam.
Mas o senhor Pedro volta a insistir para que seu “empreendimento” experimente a milagrosa vitamina. O filho não entende que, mais que uma vitamina, estão ali misturados os sonhos e as esperanças do pai... Num gesto de solidariedade toma, com os olhos fechados aquela mistura meio esverdeada-é tanta coisa ali que não é possível precisar o sabor. Satisfeito, o pai desce para a sala de estar, acende um cachimbo e o degusta, com a alma leve. Seu menino está alimentado. E fortalecido.
Os dias correm, as noites voam e ... Pronto, chega o grande dia! O despertador toca às 5h da manhã, a mãe já está acordada, não dormira a noite toda. O pai sequer roncara, sintoma de um sono leve, preso e tenso. A avó telefona às 6h e diz que está a caminho trazendo o bolo de chocolate, o preferido do Paulinho. A casa se agita, o cachorro acorda, o papagaio balbucia seu primeiro “loro” e a mesa já está posta. “Vá acordar o Paulinho”, pede o senhor Pedro a Isaura, a mãe. Mas quando chega ao quarto ela se depara com o filho sentado na cama, olhos fundos e perdidos. Pesa-lhe o corpo. Precisa fazer duas tentativas para se levantar; é o peso da responsabilidade, da resposta às expectativas da família, do retorno aos investimentos do pai, do sacrifício da mãe; enfim, terá que se agigantar diante de si mesmo para suportar tamanho fardo.
BURDEN
The noise was hollow. No crackle was heard. The surface seemed to have been smoothed by something soft. A dog barked very far away like a wolf´s howl. Darkness, Satan´s ally, was the sovereign of the night. The stars and the moon connivantly disappeared. Even the wind interrupted its course to blow over another landscape. The trees seemed to blow a bit under the burden of silence.
Dawn came up, pace by pace, sluggishly, resurrecting life, throwing light and spreading rays everywhere, reaching all and each single splint. Soon the sun made the rest. Everything was light. Sounds of all sort were heard, and people coming and going were too much absorbed by their problems to be aware of any particular significance of a meow that came from a half-blinded black cat, near a half-opened well. It kept meowing all day long, and nobody came to see what was happening to that poor, undesirable animal. A crippled and scabby dog joined the cat, barking sadly while scratching itself in an attempt to expel the fleas away. That was the proper picture of sorrow. Anyone with the faintest sensibility would feel the deep sadness those skinny animals were moaning at.
Time was, though, inexorable and night reappeared, painted everything black, giving no chance to a single sparkle to penetrate anywhere. Lightning flashed the sky, and as quickly as a ray, the rain came. It was a heavy downpour. Like a bride´s veil it spread all over the village, melting the snow on the roofs and roads. And it kept thundering the whole night.
Then the sun came! Near the well, soaked to the bones, shaking like a leaf, watched two brave animals, waiting faithfully. Before their eyes there were a piece of sausage, a pair of filthy shoes, some skins of banana, a torn bag with some smashed biscuits in it and half a wooden cross. All those lay about, near the abandoned well almost covered by weeds.
When the men of the fire-brigade came to the place sounding their sirens loudly, people woke up their inertia, and one by one got interested in what the fireman were dragging out of the well. The curiosity arose much more vividly when two tied-bare-feet appeared at the mouth of the well.
The corpse was soon placed on the ground and the two animals surrounded it. The cat first, with its twinkling eyes, nimble movements and shrill voice. Its meow was now joyful and had a sound of loyalty. The dog, due to its defect, came slowly, but even so, it managed to caper on one leg with joy. They could not understand why the men of the fire brigade soon took their companion away. People soon started moving and things returned to their normal course.
Two days later, a strong-haired-man with thick beard, badly dressed and awkward expression, walked towards the well, sat on pieces of brick and looking vaguely at the sky, started rubbing and moving half a wooden cross round his finger.
Dawn came up, pace by pace, sluggishly, resurrecting life, throwing light and spreading rays everywhere, reaching all and each single splint. Soon the sun made the rest. Everything was light. Sounds of all sort were heard, and people coming and going were too much absorbed by their problems to be aware of any particular significance of a meow that came from a half-blinded black cat, near a half-opened well. It kept meowing all day long, and nobody came to see what was happening to that poor, undesirable animal. A crippled and scabby dog joined the cat, barking sadly while scratching itself in an attempt to expel the fleas away. That was the proper picture of sorrow. Anyone with the faintest sensibility would feel the deep sadness those skinny animals were moaning at.
Time was, though, inexorable and night reappeared, painted everything black, giving no chance to a single sparkle to penetrate anywhere. Lightning flashed the sky, and as quickly as a ray, the rain came. It was a heavy downpour. Like a bride´s veil it spread all over the village, melting the snow on the roofs and roads. And it kept thundering the whole night.
Then the sun came! Near the well, soaked to the bones, shaking like a leaf, watched two brave animals, waiting faithfully. Before their eyes there were a piece of sausage, a pair of filthy shoes, some skins of banana, a torn bag with some smashed biscuits in it and half a wooden cross. All those lay about, near the abandoned well almost covered by weeds.
When the men of the fire-brigade came to the place sounding their sirens loudly, people woke up their inertia, and one by one got interested in what the fireman were dragging out of the well. The curiosity arose much more vividly when two tied-bare-feet appeared at the mouth of the well.
The corpse was soon placed on the ground and the two animals surrounded it. The cat first, with its twinkling eyes, nimble movements and shrill voice. Its meow was now joyful and had a sound of loyalty. The dog, due to its defect, came slowly, but even so, it managed to caper on one leg with joy. They could not understand why the men of the fire brigade soon took their companion away. People soon started moving and things returned to their normal course.
Two days later, a strong-haired-man with thick beard, badly dressed and awkward expression, walked towards the well, sat on pieces of brick and looking vaguely at the sky, started rubbing and moving half a wooden cross round his finger.
quarta-feira, 13 de agosto de 2008
ESPERANÇA LATENTE
A decisão não foi fácil, mas ele a manteve firme. "Vou pra Sum Paulo, tem que tê um lugá pra mim trabaiá lá, to cansado dessa miséria daqui. " Faz as malas, ou seja, coloca num saco de estopa as poucas coisas que tem: o radinho de pilha, as as cartas da Florzinha, uma vazilha de marmita e uma jaqueta jeans que comprou do primo Olegário para pagar com o primeiro salário que juntasse na cidade grande. O dinheiro da passagem, vinha guardando há seis meses, um pouquinho por mês.
O dia da partida foi agitada. Tia Rosária aparece no ponto de ônibus com um bolo de fubá, Consuelo, a prima, que alimentava alguma esperança de ocupar o lugar de Florzinha no coração do primo, vem com um pacote feito com todo capricho e lhe pede que somente o abra quando chegar ao destino. É uma toalha bordada com seu nome. Pode-se imaginar o quanto custou de seu magro salário de bordaddeira aquele agrado.
O pai, olhos vermelhos sob as grossas pálpebras, caminha em sua direção com dificuldade, apoiando-se em sua bengala gasta. Descansa um pouco e diz com voz rouca e fraca: " Que Padinho Pade Ciço lhe acompanhe, meu fio". Mainha cobre sua cabeça com um boné que o senhor Francisco da farmácia dera a seu pai quando este teve uma gripe forte, e coloca no bolso do filho alguns trocados, que guardara em baixo do colchão para situações de emergência.
Coração apertado, quase a saltar pela boca, vê sua gente ficando cada vez menor, até desaparecer na primeira curva da estrada. Olha para frente, e percebe a imensidão em que mergulha. Olha para os lados, vê gente que não o vê. Resiste ao sono que teima em aquietá-lo, até que por fim é vencido por ele.
Abre os olhos e a paisagem já mudou. Há vida nos pastos, o verde se espalha por toda parte, o mundo é colorido, um lindo colorido, percebe. Aos poucos o campo dá lugar a pequenas casas, depois pequenos prédios e finalmente a um enorme aglomerado de arranha-céus. É a cidade grande, incrivelmente grande. Seus olhos passeiam por todo o horizonte e não vê nada além de cidade. Sente-se do tamanho de um gão de areia, e clama "Oh! meu Padinho, me valei". Aperta nas mãos o pedaço de papel com o endereço de um primo, que será seu porto seguro naquele mar de prédios, gente e carros.
A luta começa. Não a imaginava tão difícil. Às quatro horas já está pronto, com marmita feita, à espera do primeiro ônibus - pega três -, pois começa trabalhar às sete. Há muita terra para cavar. "Coisa estranha, o prédio começa no fundo do poço, vixi!, e que fundo". Seis meses depois, olha para o edifícil pronto e se sente importante, mas procura pelos trocados que guardara todos os meses numa latinha redonda, conta e reconta e não entende; não dá para voltar para Quixadá, para ver mainha e painho. Decide esperar e trabalhar mais; não pode voltar derrotado, há de conseguir.
O segundo prédio fica pronto, o terceiro, o quarto... Lá se vão três anos, e não consegue fazer o fim do mês encontrar com o começo do próximo. O dinheiro lhe escorre pelos dedos, e lá pelo dia 10 já acaba. Toma então uma decisão; voltar para o nordeste. Começa uma luta interna. Experimenta sentimentos de frustração e desilusão, e, na sua pureza de trabalhador honesto, não consegue entender. " Trabaiei todo esse tempo, 8h por dia, morei nos prédio que construí, num gastava nadinha fora de precisão" E por mais que vasculhe sua mente não encontra respostas a todas as perguntas e inquietações que assombarma sua alma. Agarra-se a seu radinho de pilhas, único companheiro que o coloca em contato com sua gente, prepara sua trouxa, toma a parcela de dinheiro que recebe pela primeira quinzena de trabalho e ruma para a rodoviária.
Os prédios vão ficando pequenos, pequenos, pequeninhos, até desaparecerem no mesmo horizonte por onde surgiram há algum tempo. Ao invés de lágrimas, dança em seus olhos um brilho nunca visto, brota em sua alma uma esperança que jamais imaginara pudesse existir. E segue com a certeza de que lá é seu lugar, junto de sua gente, onde as pessoas falam a mesma língua, dividem os mesmos problemas e as mesmas alegrias, e de onde jamais deveria ter saído. Mais um desiludido que a cidade grande consegue expulsar. É a fada que se transforma em bruxa, depois que o escolhido morde a maça.
O dia da partida foi agitada. Tia Rosária aparece no ponto de ônibus com um bolo de fubá, Consuelo, a prima, que alimentava alguma esperança de ocupar o lugar de Florzinha no coração do primo, vem com um pacote feito com todo capricho e lhe pede que somente o abra quando chegar ao destino. É uma toalha bordada com seu nome. Pode-se imaginar o quanto custou de seu magro salário de bordaddeira aquele agrado.
O pai, olhos vermelhos sob as grossas pálpebras, caminha em sua direção com dificuldade, apoiando-se em sua bengala gasta. Descansa um pouco e diz com voz rouca e fraca: " Que Padinho Pade Ciço lhe acompanhe, meu fio". Mainha cobre sua cabeça com um boné que o senhor Francisco da farmácia dera a seu pai quando este teve uma gripe forte, e coloca no bolso do filho alguns trocados, que guardara em baixo do colchão para situações de emergência.
Coração apertado, quase a saltar pela boca, vê sua gente ficando cada vez menor, até desaparecer na primeira curva da estrada. Olha para frente, e percebe a imensidão em que mergulha. Olha para os lados, vê gente que não o vê. Resiste ao sono que teima em aquietá-lo, até que por fim é vencido por ele.
Abre os olhos e a paisagem já mudou. Há vida nos pastos, o verde se espalha por toda parte, o mundo é colorido, um lindo colorido, percebe. Aos poucos o campo dá lugar a pequenas casas, depois pequenos prédios e finalmente a um enorme aglomerado de arranha-céus. É a cidade grande, incrivelmente grande. Seus olhos passeiam por todo o horizonte e não vê nada além de cidade. Sente-se do tamanho de um gão de areia, e clama "Oh! meu Padinho, me valei". Aperta nas mãos o pedaço de papel com o endereço de um primo, que será seu porto seguro naquele mar de prédios, gente e carros.
A luta começa. Não a imaginava tão difícil. Às quatro horas já está pronto, com marmita feita, à espera do primeiro ônibus - pega três -, pois começa trabalhar às sete. Há muita terra para cavar. "Coisa estranha, o prédio começa no fundo do poço, vixi!, e que fundo". Seis meses depois, olha para o edifícil pronto e se sente importante, mas procura pelos trocados que guardara todos os meses numa latinha redonda, conta e reconta e não entende; não dá para voltar para Quixadá, para ver mainha e painho. Decide esperar e trabalhar mais; não pode voltar derrotado, há de conseguir.
O segundo prédio fica pronto, o terceiro, o quarto... Lá se vão três anos, e não consegue fazer o fim do mês encontrar com o começo do próximo. O dinheiro lhe escorre pelos dedos, e lá pelo dia 10 já acaba. Toma então uma decisão; voltar para o nordeste. Começa uma luta interna. Experimenta sentimentos de frustração e desilusão, e, na sua pureza de trabalhador honesto, não consegue entender. " Trabaiei todo esse tempo, 8h por dia, morei nos prédio que construí, num gastava nadinha fora de precisão" E por mais que vasculhe sua mente não encontra respostas a todas as perguntas e inquietações que assombarma sua alma. Agarra-se a seu radinho de pilhas, único companheiro que o coloca em contato com sua gente, prepara sua trouxa, toma a parcela de dinheiro que recebe pela primeira quinzena de trabalho e ruma para a rodoviária.
Os prédios vão ficando pequenos, pequenos, pequeninhos, até desaparecerem no mesmo horizonte por onde surgiram há algum tempo. Ao invés de lágrimas, dança em seus olhos um brilho nunca visto, brota em sua alma uma esperança que jamais imaginara pudesse existir. E segue com a certeza de que lá é seu lugar, junto de sua gente, onde as pessoas falam a mesma língua, dividem os mesmos problemas e as mesmas alegrias, e de onde jamais deveria ter saído. Mais um desiludido que a cidade grande consegue expulsar. É a fada que se transforma em bruxa, depois que o escolhido morde a maça.
DEDICAÇÃO EXPLÍCITA
Ela é uma esposa dedicada. Ah!, isso ninguém pode negar. Não trabalha fora. Cuida da casa com a perfeição que os momentos livres lhe permitem. Tem dois filhos pequenos, um e três anos, e outro está a caminho. Situação estressante, mas a que ela parece estar se habituando: uma criança no colo, outra lhe puxando a saia, e a terceira na barriga. Ajeita como pode a criança de colo, pois o ventre crescido lhe rouba o espaço. Leva pela mão, de um lado para outro, a criança pendurada.e junto nesse vaivém tenta acertar os lençóis da cama, recolher as meias de um lado, cueca de outro, toalhas molhadas do banho matinal do marido, ao mesmo tempo em que atenta para o apito da panela de pressão cozinhando o feijão. Lá pela hora do almoço, a casa já está, se não em ordem, pelo menos desobstruída, permitindo o ir e vir dos habitantes.
Então chega o maridão. Cansado, pois trabalhar naquele calor de 4o' em uma cidade chamada Rio de Janeiro não é mole não, é uma grande batalha. Vem comer em casa por motivo de economia. Prestativa, gentil e carinhosa lá está ela, avental retirado, cabelos penteados e mesa posta. As crianças, alimentadas, batem em retirada; uma dorme no berço, outra brinca na sala, e a última, de carona, acompanha a mãe em todos os seus movimentos. Após desfiar um rosário de reclamações sobre o expediente da manhã, e podendo soltar "aquele filho de uma puta do meu chefe" de boca cheia e com todas as letras, o marido senta-se à mesa e espera ser servido pela dedicada esposa. Finalmente ela pode experimentar a sensação do descanso, mesmo que por pouco tempo, no momento em que conta com a ajuda da cadeira que lhe ampara o fardo.
Não há sequer uma leve queixa a respeito desse mesmo período de seu dia. Sorriso nos olhos, atenta a à qualquer reinvidicação, ela come silenciosa e resignadamente, movimentos leves, cuidados, fruto da boa educação recebida em casa. Terminada a refeição, o marido, passa para a sala de estar, à espera do cafezinho, nectar dos deuses, que fecha com chave de ouro a refeição simples, mas saborosa. O café é preparado com todo esmero: três xícaras da chá de água para três colheres grandes de cheias de pó. " Mineiro gosta de café forte", ainda ouve a voz da sogra, quando da primeira vez que fez café para o filho dela. Acompanhada de todos os cuidados, a bebida é servida. Mas pasmem!, o marido reclama: " O café está frio! " - " Oh! Deus, como pude me esquecer desse detalhe". "Mineiro gosta de café forte e quente", pensa. Havia se esquecido do final da recomendação, que pecado! Corre para a cozinha com a xícara, que tomara das mãos do marido, e num lapso de presteza e dedicação leva-o diretamente ao fogo para que o café fique bem quentinho rapidinho, e num pé volta à sala
O tapete bege que cobre o centro do ambiente torna-se carijó, a xícara quica no chão até partir-se em pedacinhos. Mãos nos lábios, o marido corre `a procura de alívio na torneira da pia do lavabo, e lá fica até que possa balbuciar alguma coisa: "O que está acontecendo com você? Perdeu o cérebro?" Muda, curva-se à procura do que restara da xícara. Remove o tapete, e o coloca na área de serviço. Ouve a porta da frente bater, seguida do barulho da tranca. Desolada, olha ao redor, e de repente vê a carteira do marido sobre a mesa. Corre para a janela da frente, terceiro andar, e o vê saindo do prédio. Grita: " A carteira!" O marido olha para cima, vê as notas voando. Segue-as pasmo, umas alcançando o chão, outras pousando sobre a marquise. Conformado, recolhe as notas, volta ao prédio, pede ao porteiro para fazer a gentileza de apanhar a carteira, ou o que restara dela, e parte para o trabalho para cumprir o segundo turno do dia. Cantarolando, avental colocado, ela recomeça também seu segundo turno: louça para lavar, nenê acordando, mingau de maizena no fogo, roupas para estender...
Então chega o maridão. Cansado, pois trabalhar naquele calor de 4o' em uma cidade chamada Rio de Janeiro não é mole não, é uma grande batalha. Vem comer em casa por motivo de economia. Prestativa, gentil e carinhosa lá está ela, avental retirado, cabelos penteados e mesa posta. As crianças, alimentadas, batem em retirada; uma dorme no berço, outra brinca na sala, e a última, de carona, acompanha a mãe em todos os seus movimentos. Após desfiar um rosário de reclamações sobre o expediente da manhã, e podendo soltar "aquele filho de uma puta do meu chefe" de boca cheia e com todas as letras, o marido senta-se à mesa e espera ser servido pela dedicada esposa. Finalmente ela pode experimentar a sensação do descanso, mesmo que por pouco tempo, no momento em que conta com a ajuda da cadeira que lhe ampara o fardo.
Não há sequer uma leve queixa a respeito desse mesmo período de seu dia. Sorriso nos olhos, atenta a à qualquer reinvidicação, ela come silenciosa e resignadamente, movimentos leves, cuidados, fruto da boa educação recebida em casa. Terminada a refeição, o marido, passa para a sala de estar, à espera do cafezinho, nectar dos deuses, que fecha com chave de ouro a refeição simples, mas saborosa. O café é preparado com todo esmero: três xícaras da chá de água para três colheres grandes de cheias de pó. " Mineiro gosta de café forte", ainda ouve a voz da sogra, quando da primeira vez que fez café para o filho dela. Acompanhada de todos os cuidados, a bebida é servida. Mas pasmem!, o marido reclama: " O café está frio! " - " Oh! Deus, como pude me esquecer desse detalhe". "Mineiro gosta de café forte e quente", pensa. Havia se esquecido do final da recomendação, que pecado! Corre para a cozinha com a xícara, que tomara das mãos do marido, e num lapso de presteza e dedicação leva-o diretamente ao fogo para que o café fique bem quentinho rapidinho, e num pé volta à sala
O tapete bege que cobre o centro do ambiente torna-se carijó, a xícara quica no chão até partir-se em pedacinhos. Mãos nos lábios, o marido corre `a procura de alívio na torneira da pia do lavabo, e lá fica até que possa balbuciar alguma coisa: "O que está acontecendo com você? Perdeu o cérebro?" Muda, curva-se à procura do que restara da xícara. Remove o tapete, e o coloca na área de serviço. Ouve a porta da frente bater, seguida do barulho da tranca. Desolada, olha ao redor, e de repente vê a carteira do marido sobre a mesa. Corre para a janela da frente, terceiro andar, e o vê saindo do prédio. Grita: " A carteira!" O marido olha para cima, vê as notas voando. Segue-as pasmo, umas alcançando o chão, outras pousando sobre a marquise. Conformado, recolhe as notas, volta ao prédio, pede ao porteiro para fazer a gentileza de apanhar a carteira, ou o que restara dela, e parte para o trabalho para cumprir o segundo turno do dia. Cantarolando, avental colocado, ela recomeça também seu segundo turno: louça para lavar, nenê acordando, mingau de maizena no fogo, roupas para estender...
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