quarta-feira, 13 de agosto de 2008

ESPERANÇA LATENTE

A decisão não foi fácil, mas ele a manteve firme. "Vou pra Sum Paulo, tem que tê um lugá pra mim trabaiá lá, to cansado dessa miséria daqui. " Faz as malas, ou seja, coloca num saco de estopa as poucas coisas que tem: o radinho de pilha, as as cartas da Florzinha, uma vazilha de marmita e uma jaqueta jeans que comprou do primo Olegário para pagar com o primeiro salário que juntasse na cidade grande. O dinheiro da passagem, vinha guardando há seis meses, um pouquinho por mês.
O dia da partida foi agitada. Tia Rosária aparece no ponto de ônibus com um bolo de fubá, Consuelo, a prima, que alimentava alguma esperança de ocupar o lugar de Florzinha no coração do primo, vem com um pacote feito com todo capricho e lhe pede que somente o abra quando chegar ao destino. É uma toalha bordada com seu nome. Pode-se imaginar o quanto custou de seu magro salário de bordaddeira aquele agrado.
O pai, olhos vermelhos sob as grossas pálpebras, caminha em sua direção com dificuldade, apoiando-se em sua bengala gasta. Descansa um pouco e diz com voz rouca e fraca: " Que Padinho Pade Ciço lhe acompanhe, meu fio". Mainha cobre sua cabeça com um boné que o senhor Francisco da farmácia dera a seu pai quando este teve uma gripe forte, e coloca no bolso do filho alguns trocados, que guardara em baixo do colchão para situações de emergência.
Coração apertado, quase a saltar pela boca, vê sua gente ficando cada vez menor, até desaparecer na primeira curva da estrada. Olha para frente, e percebe a imensidão em que mergulha. Olha para os lados, vê gente que não o vê. Resiste ao sono que teima em aquietá-lo, até que por fim é vencido por ele.
Abre os olhos e a paisagem já mudou. Há vida nos pastos, o verde se espalha por toda parte, o mundo é colorido, um lindo colorido, percebe. Aos poucos o campo dá lugar a pequenas casas, depois pequenos prédios e finalmente a um enorme aglomerado de arranha-céus. É a cidade grande, incrivelmente grande. Seus olhos passeiam por todo o horizonte e não vê nada além de cidade. Sente-se do tamanho de um gão de areia, e clama "Oh! meu Padinho, me valei". Aperta nas mãos o pedaço de papel com o endereço de um primo, que será seu porto seguro naquele mar de prédios, gente e carros.
A luta começa. Não a imaginava tão difícil. Às quatro horas já está pronto, com marmita feita, à espera do primeiro ônibus - pega três -, pois começa trabalhar às sete. Há muita terra para cavar. "Coisa estranha, o prédio começa no fundo do poço, vixi!, e que fundo". Seis meses depois, olha para o edifícil pronto e se sente importante, mas procura pelos trocados que guardara todos os meses numa latinha redonda, conta e reconta e não entende; não dá para voltar para Quixadá, para ver mainha e painho. Decide esperar e trabalhar mais; não pode voltar derrotado, há de conseguir.
O segundo prédio fica pronto, o terceiro, o quarto... Lá se vão três anos, e não consegue fazer o fim do mês encontrar com o começo do próximo. O dinheiro lhe escorre pelos dedos, e lá pelo dia 10 já acaba. Toma então uma decisão; voltar para o nordeste. Começa uma luta interna. Experimenta sentimentos de frustração e desilusão, e, na sua pureza de trabalhador honesto, não consegue entender. " Trabaiei todo esse tempo, 8h por dia, morei nos prédio que construí, num gastava nadinha fora de precisão" E por mais que vasculhe sua mente não encontra respostas a todas as perguntas e inquietações que assombarma sua alma. Agarra-se a seu radinho de pilhas, único companheiro que o coloca em contato com sua gente, prepara sua trouxa, toma a parcela de dinheiro que recebe pela primeira quinzena de trabalho e ruma para a rodoviária.
Os prédios vão ficando pequenos, pequenos, pequeninhos, até desaparecerem no mesmo horizonte por onde surgiram há algum tempo. Ao invés de lágrimas, dança em seus olhos um brilho nunca visto, brota em sua alma uma esperança que jamais imaginara pudesse existir. E segue com a certeza de que lá é seu lugar, junto de sua gente, onde as pessoas falam a mesma língua, dividem os mesmos problemas e as mesmas alegrias, e de onde jamais deveria ter saído. Mais um desiludido que a cidade grande consegue expulsar. É a fada que se transforma em bruxa, depois que o escolhido morde a maça.

Um comentário:

Francisco Castro disse...

Oi, gostei muito do seu blog.

Parabéns!

Abraços