quarta-feira, 13 de agosto de 2008

DEDICAÇÃO EXPLÍCITA

Ela é uma esposa dedicada. Ah!, isso ninguém pode negar. Não trabalha fora. Cuida da casa com a perfeição que os momentos livres lhe permitem. Tem dois filhos pequenos, um e três anos, e outro está a caminho. Situação estressante, mas a que ela parece estar se habituando: uma criança no colo, outra lhe puxando a saia, e a terceira na barriga. Ajeita como pode a criança de colo, pois o ventre crescido lhe rouba o espaço. Leva pela mão, de um lado para outro, a criança pendurada.e junto nesse vaivém tenta acertar os lençóis da cama, recolher as meias de um lado, cueca de outro, toalhas molhadas do banho matinal do marido, ao mesmo tempo em que atenta para o apito da panela de pressão cozinhando o feijão. Lá pela hora do almoço, a casa já está, se não em ordem, pelo menos desobstruída, permitindo o ir e vir dos habitantes.
Então chega o maridão. Cansado, pois trabalhar naquele calor de 4o' em uma cidade chamada Rio de Janeiro não é mole não, é uma grande batalha. Vem comer em casa por motivo de economia. Prestativa, gentil e carinhosa lá está ela, avental retirado, cabelos penteados e mesa posta. As crianças, alimentadas, batem em retirada; uma dorme no berço, outra brinca na sala, e a última, de carona, acompanha a mãe em todos os seus movimentos. Após desfiar um rosário de reclamações sobre o expediente da manhã, e podendo soltar "aquele filho de uma puta do meu chefe" de boca cheia e com todas as letras, o marido senta-se à mesa e espera ser servido pela dedicada esposa. Finalmente ela pode experimentar a sensação do descanso, mesmo que por pouco tempo, no momento em que conta com a ajuda da cadeira que lhe ampara o fardo.
Não há sequer uma leve queixa a respeito desse mesmo período de seu dia. Sorriso nos olhos, atenta a à qualquer reinvidicação, ela come silenciosa e resignadamente, movimentos leves, cuidados, fruto da boa educação recebida em casa. Terminada a refeição, o marido, passa para a sala de estar, à espera do cafezinho, nectar dos deuses, que fecha com chave de ouro a refeição simples, mas saborosa. O café é preparado com todo esmero: três xícaras da chá de água para três colheres grandes de cheias de pó. " Mineiro gosta de café forte", ainda ouve a voz da sogra, quando da primeira vez que fez café para o filho dela. Acompanhada de todos os cuidados, a bebida é servida. Mas pasmem!, o marido reclama: " O café está frio! " - " Oh! Deus, como pude me esquecer desse detalhe". "Mineiro gosta de café forte e quente", pensa. Havia se esquecido do final da recomendação, que pecado! Corre para a cozinha com a xícara, que tomara das mãos do marido, e num lapso de presteza e dedicação leva-o diretamente ao fogo para que o café fique bem quentinho rapidinho, e num pé volta à sala
O tapete bege que cobre o centro do ambiente torna-se carijó, a xícara quica no chão até partir-se em pedacinhos. Mãos nos lábios, o marido corre `a procura de alívio na torneira da pia do lavabo, e lá fica até que possa balbuciar alguma coisa: "O que está acontecendo com você? Perdeu o cérebro?" Muda, curva-se à procura do que restara da xícara. Remove o tapete, e o coloca na área de serviço. Ouve a porta da frente bater, seguida do barulho da tranca. Desolada, olha ao redor, e de repente vê a carteira do marido sobre a mesa. Corre para a janela da frente, terceiro andar, e o vê saindo do prédio. Grita: " A carteira!" O marido olha para cima, vê as notas voando. Segue-as pasmo, umas alcançando o chão, outras pousando sobre a marquise. Conformado, recolhe as notas, volta ao prédio, pede ao porteiro para fazer a gentileza de apanhar a carteira, ou o que restara dela, e parte para o trabalho para cumprir o segundo turno do dia. Cantarolando, avental colocado, ela recomeça também seu segundo turno: louça para lavar, nenê acordando, mingau de maizena no fogo, roupas para estender...

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