quarta-feira, 13 de agosto de 2008

CARNAVAL EM ILHABELA

A praia não poderia ser mais aprazível: areia branca, macia, contornada por uma cadeia de montanhas verde-oliva, mar calmo, de tom azul esverdeado, salpicado pelo branco dos barcos, lanchas e iates, como um jardim florido. Dois petroleiros de cor cinza se misturam às montanhas durante o dia. À noite ganham vida, quando suas luzes se acendem e brilham ao longe, como um parque de diversões.
É nesse o cenário que a vida é dez! Garotas lindas, em seus sumários biquínis, no “vaivém de seus quadris”, arrancam olhares e suspiros masculinos, postados como uma espécie de “júri”, que tudo vê por trás dos óculos escuros, expediente que lhes confere o anonimato confortável. A oferta é tanta que não convém dirigir-se a elas, e sim apreciá-las, uma a uma, nos seus predicados, trejeitos e artifícios. É o jogo da sedução.

A garota, em seu biquíni de poá azul e branco sobre a pele dourada, estende-se numa esteira de palha, seu território, e lá mexe e remexe o corpo com movimentos sensuais, na tentativa de colorir de sol o único pedacinho que ainda não fora beijado pelo astro rei. A mulata com olhos verdes, cabelos longos, desfila em uma tanguinha florida, vista de frente, porque por trás, coberta até a altura do bumbum com uma camiseta dobrada, tem-se a impressão que nada há por baixo. Parece ser exatamente essa a impressão que ela quer passar. Nessa arena, todas usam das armas que têm para se destacar. Não imaginam que já possuem todo enfeite necessário: a juventude.

Há uma ducha de água doce, por onde passa uma fila permanente de garotas que se molham para voltar ao sol e fixar o bronzeado. Um grupo de coroas posta-se ao lado delas para apreciar bem de perto aquelas belezuras, diante de tanta “carne firme” salivam mais que o próprio chuveiro. Um apreciador mais ousado chega a tocar o ombro de uma delas e tem como resposta um olhar fulminante, seguido de um “ Vê se se enxerga vovô”! Benditos óculos escuros que, naturalmente, nessa hora, escondem o apagar do brilho dos olhos daquele cinquentão. Mais reservado e mais prudente, um outro admirador, já longe dos seus anos “teens”, encorajado pelo mesmo expediente dos óculos escuros e pelo jornal aberto, que lhe cobre o rosto, bebe de toda beleza e sensualidade que invadem suas retinas, sem ser percebido.

Num espaço como esse, onde o lugar-comum é a pouca roupa, uma garota meio fora dos padrões de beleza reinante desfila na passarela do sol e consegue ter a atenção dos presentes pelo inusitado de seus trajes: vestido longo florido, lenço de cigana na cabeça pulseiras douradas, e brincos acompanhando o tom das pulseiras. É a guerra pela notoriedade.
Os garotos também se preocupam em se enfeitar na disputa acirrada pela sedução. A maioria deles usa chapéus, de diversos tipos, colares, pulseiras, brincos, cabelos compridos soltos ou rabos-de-cavalo. Sabem que também passam pelo crivo seletivo das garotas, em que alguns quesitos como alto, forte, musculoso, coxas grossas e ombros largos são dispensáveis.
Um moreno de porte atlético exibe uma filmadora “high tech”, de um lado para outro, arrebatando os olhares das ninfas, mas o que ele pensa estar exibindo em termos de “status”, não é, na verdade, objeto de admiração e sim o próprio porte físico.

Munidos de latas de cerveja, ou bebendo no gargalo das garrafas os garotos sentem-se mais seguros para lançar seus galanteios, no jogo da conquista.
Como uma “estranha no ninho”, desfavorecida pelo implacável caminhar do tempo, a “lady” recorre a um maiô verde- limão, com detalhes roxos, chapéu havana, óculos escuros estilo gatinho, brincos de argola dourados, e uma canga com cores que combinam com o conjunto. Não consegue convergir olhares, nem dos “garotos de outrora”. O tempo é implacável e deixa marcas indesejáveis.

Contrastando com isso tudo, há um outro tipo de desfile, dos que lutam pela própria sobrevivência: os vendedores. Cada um procura chamar a atenção dos veranistas, não pelo porte físico, bronzeado, ou pela beleza, mas sim para que comprem seus produtos, que lhes garantem o dia-a-dia. O vendedor de amendoins se enfeita com os favos, pendurando-os por entre os cabelos, formando uma cabeleira “black power”, e com o “slogan” “falta um amendoim aí para fazer sua felicidade!” ele caminha entre as belas, sem notá-las, olhos atentos nos fregueses. O sorveteiro, vestido de branco, suando em bicas, mas sorridente empurra o carrinho sem fazer propaganda. O próprio calor de 38 graus se encarrega disso. O que mais se destaca entre eles é o vendedor de cerveja e suco de laranja, um jovem bonito, forte, que usa uma série de artifícios para se fazer notar: óculos coloridos, brincos de argolas grandes, seios postiços, roupas coloridas, e com voz estridente berra a todo pulmão “Olha a lourinha aí gente! Vamos hidratar esse corpinho!” Além de distribuir simpatia, conversando e brincando com todos, o vendedor exibe uma resistência impressionante, ao caminhar pelas areias quentes, atendendo a todos até o último aceno do dia.

Dois públicos, dois propósitos diferentes, um servindo ao outro... igualam-se, por um momento, as classes sociais. Ao final da tarde, com muitas latas e garrafas vazias, a garotada enlouquece ao som da banda, ao vivo. A ordem é pular e pular. A pouca roupa lhes facilita os movimentos e então a brasilidade aflora, e a moçada mostra que não é “nem ruim da cabeça nem doente do pé”

Coroando toda essa alegria, o sol se põe devagarzinho, distribuindo seus raios dourados, já enfraquecidos, cansaços, sem o mesmo vigor da manhã, mas com beleza suficiente para derramar seus reflexos no mar, criando uma atmosfera mágica, um cenário perfeito para fechar em grande estilo o carnaval, nessa ilha da Fantasia.

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