terça-feira, 12 de agosto de 2008

O CAMINHO DE UM JOVEM

Que alegria sentiu Rita quando constatou a segunda gravidez, e mais ainda, quando descobriu que era um meninão, quesito importante, principalmente para o marido que sonhava com um herdeiro masculino, uma vez que a primogênita viera na frente. A mãe é cercada de todos os cuidados que merece uma gestante: Alimentos escolhidos por uma nutricionista, muita fruta, legumes etc. etc. Já perto do evento os meses se arrastam, os dias são contados, horas e minutos.

Finalmente, numa madrugada quente, nasce o rebento! A expectativa, alegria e desejo contidos explodem em emoção ao receber aquele que foi gerado com tanto amor. Daniel, o nome já havia sido escolhido meses antes, chora com vigor, movimenta os bracinhos e como que reconhecendo aquela que o abrigara por nove meses sente-se protegido, e adormece.

Os primeiros anos foram traduzidos em alegria para os pais zelosos que sempre procuraram dar a Daniel uma boa alimentação, carinho e atenção. Com 7 anos começa sua trajetória educacional num colégio particular de uma cidade do interior. Era muito elogiado pelos professores e apresentava um boletim anual impecável, todo azul -notas boas, se vermelho seria o contrário. Os anos correm e Daniel termina o primeiro grau (hoje básico). “Temos que comemorar essas notas azuis durante todos esses anos!” Afirma o orgulhoso senhor Gustavo, pai do garoto. “Esse evento merece uma festa!” Reafirma o pai. Rita prepara então uma bela comemoração, convida os amigos de escola, parentes e amigos da família.
Foi uma noite memorável, até fogos de artifícios teve. O filho ganha muitos elogios e muitos presentes, entre eles, uma bicicleta, sonho acalentado por Daniel há algum tempo.

Foi uma verdadeira aventura dominar aquelas duas rodas em tão pouco tempo- um dia. Mas a vontade era tanta que o garoto logo se ajeita e tira os pés do chão, voa para a liberdade sentindo com maior prazer o vento em seu rosto, cada vez mais forte. Todos os dias, no período de férias antes de ingressar no segundo grau (hoje fundamental), Daniel conquistava mais territórios com sua bike. Menino ajuizado como sempre foi, deixava os pais tranqüilos quanto a seu comportamento.

O novo ano começa e a família aposta no bom desempenho do filho nessa outra etapa escolar, e mais, fazem planos, dão conselhos que carreira seguir para construir uma vida tranqüila e produtiva. Daniel concorda e promete seguir os caminhos que seus pais apontam com tanta sabedoria. Como dominava bem seu veículo de locomoção, o garoto teve permissão para ir às aulas com sua bike, sob forte recomendação, naturalmente. Assim foi feito.
O primeiro ano não foi tão brilhante. Houve umas notas vermelhas que destoaram escandalosamente das azuis, porém não dominaram o boletim inteiramente, a bem da verdade. Mesmo assim os pais, não acostumados com essa nova realidade, se inquietaram. Daniel as recupera e passa para o segundo ano com algum aperto. De uma maneira ou de outra, o caminho segue. No primeiro bimestre do ano seguinte, a cor vermelha apareceu mais cedo, junto com uma carta da direção pedindo o comparecimento dos pais na escola. Rita e Gustavo entraram em pânico, como? O que estava acontecendo com aquele amado filho? Entreolharam-se ao pensar juntos.

A volta da escola foi silenciosa, não se falaram não se olharam pareciam procurar, cada um de seu lado, o que faltou naquela construção que começava dar sinais de fragilidade. Teriam apontado ao filho um caminho muito sinuoso que o fez desistir de enfrentá-lo? Ou teriam indicado um largo demais, sem tropeços.
A voz da diretora ainda ecoava em seus ouvidos: “Daniel anda disperso, olhar distante e escapadas antes do término do período”. “Peço desculpas, mas tenho que alertá-los”, e continuou: “Como lidamos com jovens há muitos anos, conseguimos notar comportamentos que fogem aos padrões da normalidade, isto é, atenção, interesse e obediência”.
Já em casa, Rita e Gustavo esperam a volta de Daniel que havia dito que estaria estudando com amigos.

Ao interpelá-lo sentiram que seus olhos não os fitavam como era de costume. Havia certa indecisão, a espontaneidade havia desaparecido e sua voz não tinha a mesma assertividade de sempre. Esses sinais gelaram os pais. Logo veio o segundo sinal, a mentira. Após alguns questionamentos, pedidos e conselhos, os pais o cercam de atenção e carinho, na tentativa de trazê-lo para perto deles. O ano segue, os pais seqüestram a bicicleta e passam a acompanhá-lo para aula. Mas qual, quando termina o segundo bimestre vem a triste constatação, Daniel fica em dependência em seis matérias, ou seja, reprova o ano.

Rita adoece, Gustavo faz um esforço enorme para não bater no filho, mas ouve a mulher que acredita que uma medida drástica como essa só pioraria a situação. Há no semblante dos pais uma grande tristeza e uma grande dor ao entender e aceitar que seu filho fora ceifado pelas drogas.

Após um ano de internação Daniel retorna cheio de planos, está mais confiante e aparentemente mais saudável. Rita parece ganhar uma vida nova e espalha aos quatro cantos que seu filho vai retomar sua vida do ponto em que parou.

As festas de fim de ano foram comemoradas com mais sabor e muito amor. Um novo ano se inicia. Daniel volta às aulas termina o curso e se prepara para faculdade de medicina. Consegue uma vaga em uma universidade particular. Gustavo compra todos os livros que dariam suporte ao curso. O caminho de Daniel segue sem tropeços.
Algum tempo depois, no entanto, rapazes da mesma idade do filho começam procurar por ele em sua casa. Ao observar pela janela da sala de jantar Rita atenta para tais visitas e observa se são colegas da faculdade. Não são. Logo o resultado chega. Daniel abandona o curso depois de uma torrente de fracassos. Rita, como toda mãe, ainda acreditava que era um episódio passageiro e que seu filho poderia fazer outro curso, talvez mais ao gosto de Daniel. Gustavo mais razão e menos coração entende que estavam vivendo um drama que se delineava sombrio.

Hoje, passados cinco anos, Rita ainda espera por notícias do filho amado que abandonou os pais sem dizer palavras. Gustavo, na sua dor, se pergunta: “Por que esse mal que está destruindo os jovens de todo mundo não tem fim?”. Cansado e sentindo-se derrotado, olha a esposa e, juntos, exclamam: “A droga venceu”.

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