terça-feira, 12 de agosto de 2008

A DONA DO MOÇO

Com muita dificuldade anda a velha senhora. Tem as pernas tortas curvadas para dentro fazendo um meio arco, o resto do corpo acompanha essa curvatura tornando o andar trôpego e arrastado. Em função do problema do atrofiamento das pernas, no momento de solicitá-las, uma dor aguda se manifesta correndo corpo a fora.

A bengala providencial a ajuda na locomoção do velho fardo quando é solicitada a atender alguém na porta de sua casa. Tem também um leve problema de audição e quando os agentes de saúde vêm visitá-la precisam chamá-la mais de uma vez. Em razão disso ela precisa falar alto quando responde a alguém. A voz é estridente, o olhar é triste, misto de indignação e sofrimento, talvez pela sua condição. Raramente circula pelo quintal da casa e, quando o faz, é para apanhar a correspondência da caixa de correio colocada no portão da frente que fica sempre destrancado para facilitar o ir e vir.

Em sua companhia teve por muitos anos o marido. Homem de baixa estatura, comunicativo e cheio de vida. Embora já velhinho, atendia a esposa nas tarefas mais pesadas, fazia a feira, supermercado, a limpeza da casa etc,. Cuidava também de dois sabiás que tempos depois providencialmente os soltou, como devia ser.Não tinham cachorro porque o latido incomodava a velha senhora. Mas o cantar dos passarinhos não, embora ouvisse pouco, era lenitivo para seus ouvidos. Quando o marido os soltoou ficou triste, mas entendeu que era maldade mantê-los preso numa gaiola.

Juventino gostava de ficar no portão de casa apreciando o movimento e com isso conhecia muita gente da pequena cidade praiana onde morava. Dessa maneira, quando as pessoas passavam as chamava para "um dedo de prosa", como costumava dizer. Só que essa prosa podia se estender por horas a fio, dependendo da disponibilidade do transeunte. Falava alto e gesticulava ao mesmo tempo para melhor se fazer entender quando contava sua história, as dificuldades que vivera e as peças que a vida lhe pregara. Dizia que já tinha feito "de um tudo", expressão comum entre os habitantes do lugar. Já fora marinheiro - por isso ainda estava perto do mar - auxiliar de pedreiro, condutor de carrocinha, prestara serviços de transporte numa dada época e pescador. Ah! Essa era a atividade que mais lhe dava prazer. Vez ou outra aparecia em casa com um peixe grande e dizia que ele mesmo o tinha fisgado. Quem iria duvidar! Em seguida preparava-o e assava. Era muito bom nos dotes culinários e os utilizava há muito tempo, desde que sua esposa adoecera. Não tiveram filhos, desse modo, um se valia do outro para quase todas as questões. Em conversa com os amigos transeuntes sempre dizia que estava à disposição do Senhor. " Quando Ele precisar de um auxiliar para qualquer serviço lá no céu estou pronto para ir, até mesmo para Lhe preparar um bom peixe assado". Brincava.

Alguns dias antes do Natal de 2006, as pessoas, os mesmos transeuntes, continuavam passando pela mesma rua onde moravam Juventino e dona Idalina, mas com uma pressa desmedida, pois todos tinham muitas coisas para comprar, resolver, decidir antes da data mais importante do ano. Nessa pressa nem notaram que não estavam mais sendo solicitados para uma boa prosa com a velhinho da casinha azul. Não havia tempo para isso. Porém um transeunte mais atento, que já se considerava amigo do senhor, notou, certo dia, que o portão estava fechado e a casa silenciosa. O mesmo cenário se repetiu nos dias que se seguiram. Então, preocupado, resolveu averiguar se o senhor estava bem ou se havia viajado, dada à ausência notada.

Não havia campainha no portão, as repetidas palmas acordaram a velha senhora que descansava num momento de recolhimento. Como ouvia mal, levou algum tempo para que entendesse que se tratava de alguém solicitando sua presença. Com a dificuldade de sempre, apooiada na bengala, seu amparo, a senhora caminha devagar em direção ao portão. O corredor lhe parece interminável, mas com determinação encurta a distância passo a passo.

Um senhor com aparência amigável a espera no portão. Cumprimenta-a gentilmente e pergunta pelo velho bom de prosa. A senhora cambaleia, fica pálida e se apóia nas grades do portão para não cair. " O senhor não sabe? Ele foi embora, me deixou". Responde com voz estridente e embargada a velha senhora.

O amigo que quase que diariamente conversava com Juventino, ficou meio desconsertado sem saber se a afirmação "ele se foi, me deixou" seria uma separação de casal, ou se o senhor havia morrido.

Ia perguntar mais alguma coisa, mas a senhora sem dizer mais palavras, vira-se e empreende a penosa volta para casa com sua fiel bengala. Ainda meio confuso e bastante preocupado insiste e, antes que ela desaparecesse no fim do corredor, grita: " A senhoar tem filhos? Ficou sozinha?. "Não" Responde com voz chorosa a pobre mulher."Tenho o moço". E desaparece por uma porta lateral. "Bem", Pensou o amigo. Menos mal, naturalmente ela ficou amparada por alguém, algum sobrinho, um parente, ou quem sabe um filho, que deve ser esse moço a que ela se refere. Já estava se retirando quando a ouviu chamar com insistência: " Moço, moço, vem papá". "Deve ser um tratamento carinhoso que ela dispensa à pessoa que lhe faz companhia", conclui o amigo. Porém, o moço não atende ao primeiro apelo. A senhora continua chamá-lo para comer a refeição que havia preparado.

Como ela insiste sem sucesso, o amigo resolve voltar e verificar o que estava acontecendo, para em última instância, ajudá-la a localizar a pessoa que não atende aos apelos de uma voz desesperada. De repente, ouve: Ah! Você veio malandrinho, come aqui" Curioso o amigo se esgueira, sobe na grade do portão para, enfim, ver "o moço". Qual foi seu espanto quando um gato preto, com pelos ralos, meio coxo, sem raça definida, aparece miando, como que agradecendo a hospitalidade recebida e come com avidez o prato preparado com todo carinho para ele.

O amigo desce da grade com os olhos marejados e deixa o local.

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