quarta-feira, 13 de agosto de 2008
ESPERANÇA LATENTE
O dia da partida foi agitada. Tia Rosária aparece no ponto de ônibus com um bolo de fubá, Consuelo, a prima, que alimentava alguma esperança de ocupar o lugar de Florzinha no coração do primo, vem com um pacote feito com todo capricho e lhe pede que somente o abra quando chegar ao destino. É uma toalha bordada com seu nome. Pode-se imaginar o quanto custou de seu magro salário de bordaddeira aquele agrado.
O pai, olhos vermelhos sob as grossas pálpebras, caminha em sua direção com dificuldade, apoiando-se em sua bengala gasta. Descansa um pouco e diz com voz rouca e fraca: " Que Padinho Pade Ciço lhe acompanhe, meu fio". Mainha cobre sua cabeça com um boné que o senhor Francisco da farmácia dera a seu pai quando este teve uma gripe forte, e coloca no bolso do filho alguns trocados, que guardara em baixo do colchão para situações de emergência.
Coração apertado, quase a saltar pela boca, vê sua gente ficando cada vez menor, até desaparecer na primeira curva da estrada. Olha para frente, e percebe a imensidão em que mergulha. Olha para os lados, vê gente que não o vê. Resiste ao sono que teima em aquietá-lo, até que por fim é vencido por ele.
Abre os olhos e a paisagem já mudou. Há vida nos pastos, o verde se espalha por toda parte, o mundo é colorido, um lindo colorido, percebe. Aos poucos o campo dá lugar a pequenas casas, depois pequenos prédios e finalmente a um enorme aglomerado de arranha-céus. É a cidade grande, incrivelmente grande. Seus olhos passeiam por todo o horizonte e não vê nada além de cidade. Sente-se do tamanho de um gão de areia, e clama "Oh! meu Padinho, me valei". Aperta nas mãos o pedaço de papel com o endereço de um primo, que será seu porto seguro naquele mar de prédios, gente e carros.
A luta começa. Não a imaginava tão difícil. Às quatro horas já está pronto, com marmita feita, à espera do primeiro ônibus - pega três -, pois começa trabalhar às sete. Há muita terra para cavar. "Coisa estranha, o prédio começa no fundo do poço, vixi!, e que fundo". Seis meses depois, olha para o edifícil pronto e se sente importante, mas procura pelos trocados que guardara todos os meses numa latinha redonda, conta e reconta e não entende; não dá para voltar para Quixadá, para ver mainha e painho. Decide esperar e trabalhar mais; não pode voltar derrotado, há de conseguir.
O segundo prédio fica pronto, o terceiro, o quarto... Lá se vão três anos, e não consegue fazer o fim do mês encontrar com o começo do próximo. O dinheiro lhe escorre pelos dedos, e lá pelo dia 10 já acaba. Toma então uma decisão; voltar para o nordeste. Começa uma luta interna. Experimenta sentimentos de frustração e desilusão, e, na sua pureza de trabalhador honesto, não consegue entender. " Trabaiei todo esse tempo, 8h por dia, morei nos prédio que construí, num gastava nadinha fora de precisão" E por mais que vasculhe sua mente não encontra respostas a todas as perguntas e inquietações que assombarma sua alma. Agarra-se a seu radinho de pilhas, único companheiro que o coloca em contato com sua gente, prepara sua trouxa, toma a parcela de dinheiro que recebe pela primeira quinzena de trabalho e ruma para a rodoviária.
Os prédios vão ficando pequenos, pequenos, pequeninhos, até desaparecerem no mesmo horizonte por onde surgiram há algum tempo. Ao invés de lágrimas, dança em seus olhos um brilho nunca visto, brota em sua alma uma esperança que jamais imaginara pudesse existir. E segue com a certeza de que lá é seu lugar, junto de sua gente, onde as pessoas falam a mesma língua, dividem os mesmos problemas e as mesmas alegrias, e de onde jamais deveria ter saído. Mais um desiludido que a cidade grande consegue expulsar. É a fada que se transforma em bruxa, depois que o escolhido morde a maça.
DEDICAÇÃO EXPLÍCITA
Então chega o maridão. Cansado, pois trabalhar naquele calor de 4o' em uma cidade chamada Rio de Janeiro não é mole não, é uma grande batalha. Vem comer em casa por motivo de economia. Prestativa, gentil e carinhosa lá está ela, avental retirado, cabelos penteados e mesa posta. As crianças, alimentadas, batem em retirada; uma dorme no berço, outra brinca na sala, e a última, de carona, acompanha a mãe em todos os seus movimentos. Após desfiar um rosário de reclamações sobre o expediente da manhã, e podendo soltar "aquele filho de uma puta do meu chefe" de boca cheia e com todas as letras, o marido senta-se à mesa e espera ser servido pela dedicada esposa. Finalmente ela pode experimentar a sensação do descanso, mesmo que por pouco tempo, no momento em que conta com a ajuda da cadeira que lhe ampara o fardo.
Não há sequer uma leve queixa a respeito desse mesmo período de seu dia. Sorriso nos olhos, atenta a à qualquer reinvidicação, ela come silenciosa e resignadamente, movimentos leves, cuidados, fruto da boa educação recebida em casa. Terminada a refeição, o marido, passa para a sala de estar, à espera do cafezinho, nectar dos deuses, que fecha com chave de ouro a refeição simples, mas saborosa. O café é preparado com todo esmero: três xícaras da chá de água para três colheres grandes de cheias de pó. " Mineiro gosta de café forte", ainda ouve a voz da sogra, quando da primeira vez que fez café para o filho dela. Acompanhada de todos os cuidados, a bebida é servida. Mas pasmem!, o marido reclama: " O café está frio! " - " Oh! Deus, como pude me esquecer desse detalhe". "Mineiro gosta de café forte e quente", pensa. Havia se esquecido do final da recomendação, que pecado! Corre para a cozinha com a xícara, que tomara das mãos do marido, e num lapso de presteza e dedicação leva-o diretamente ao fogo para que o café fique bem quentinho rapidinho, e num pé volta à sala
O tapete bege que cobre o centro do ambiente torna-se carijó, a xícara quica no chão até partir-se em pedacinhos. Mãos nos lábios, o marido corre `a procura de alívio na torneira da pia do lavabo, e lá fica até que possa balbuciar alguma coisa: "O que está acontecendo com você? Perdeu o cérebro?" Muda, curva-se à procura do que restara da xícara. Remove o tapete, e o coloca na área de serviço. Ouve a porta da frente bater, seguida do barulho da tranca. Desolada, olha ao redor, e de repente vê a carteira do marido sobre a mesa. Corre para a janela da frente, terceiro andar, e o vê saindo do prédio. Grita: " A carteira!" O marido olha para cima, vê as notas voando. Segue-as pasmo, umas alcançando o chão, outras pousando sobre a marquise. Conformado, recolhe as notas, volta ao prédio, pede ao porteiro para fazer a gentileza de apanhar a carteira, ou o que restara dela, e parte para o trabalho para cumprir o segundo turno do dia. Cantarolando, avental colocado, ela recomeça também seu segundo turno: louça para lavar, nenê acordando, mingau de maizena no fogo, roupas para estender...
VÉSPERA DE NATAL
Ao embalo das músicas natalinas, todos precisam de um sapato novo, um vestido da moda, um espremedor de frutas, uma coleira anti-pulga para o cachorro, e, por que não um colchão com bolinhas, que massageia a coluna. Dizem que é muito bom.
O garoto afobado puxa a saia da mãe e diz: "Manhê, é esse que eu quero. Vai, compra!" E a mãe para ajeitar as coisas, diz "Já encomendei ao Papai Noel". O menino, meio desconfiado, volta-se para a vitrine, depois para a mãe, e assim sucessivamente, até seu "desejo" desaparecer na esquina do próximo corredor.
O marido, cercado pelos filhos- três - e mais a esposa, escorrega mais que sabão diante dos pedidos natalinos da família: "É, podemos ver depois, vamos pesquisar os preços antes". E os olhos dos "pedintes" vão ficando embotados, desesperançados, cheios de indagações!
Na euforia dos tempos natalinos, há um desejo frenético de mudar. Tudo se torna velho, gasto, antigo e de mal gosto de repente. É preciso comprar e comprar, carregar pacotes e mais pacotes, sentir-se cansado, conseguir um espaço para andar, reclamar do atendimento nas lojas, e, por fim, sentir-se livre ao deixar o shopping e voltar para casa com a alma leve, na certeza da realização das boas compras feitas.
Enfim, é Natal. Abrem-se os presentes e aos poucos toda aquela euforia vai se desvanecendo. O olhar é outro, muito mais crítico, e a garota percebe que a mini que ela escolheu não é tão mini assim; aqueles lindos sapatos da vitrine agora apertam os pés, e o soutien para levantar e dar um ar de garota, como mostrava a vitrine, não funciona para dona Matilde. E, veja só, o senhor Rubens sente-se aprisionado dentro das cuecas modernas que a mulher o aconselhara comprar "Vamos deixe de lado aquelas sambas-canção que tiram qualquer tesão."
Porém o senhor Rubens não se adapta ao moderno, volta à moda antiga, e as devolve à mulher e diz para ela desaparecer com aqueles "cintos de castidade" que lhes tiram a liberdade de ir e vir.
Bem, pacotes abertos passa-se para o segundo ato: comer e comer, tudo de uma vez: peru combinando com leitão, farofa com maionese, macarronada, salada etc., etc... Muito vinho, cerveja, uísque; enfim, tudo a que se tem direito. Depois vem a sobremesa: pudim, bolo de nozes, pavê de amendoim, nossa! Quanta coisa boa!
"Acho que agora é hora de descansar um pouquinho" Diz o chefe da casa, afinal o estômago também cansa. Quando acorda já é muito tarde e o Natal, já passou. "Até me esqueci de hoje é Natal!"
Triste realidade; a data em que se comemora o nascimento de Jesus transforma-se em dia de receber presentes, comer, beber e descansar. A verdadeira alegria que deveria aflorar em todos os corações pelo maravilhoso acontecimento fica em último plano. Assim é o ser humano: valores externos sobrepujam os valores internos e sufocam a voz da alma.
FELIZ ANO NOVO
Ficamos mais velhos a cada ano que passa! Então o NOVO traz o velho? Coisa maluca essa não?
Mas para não ferir a tradição reflitamos um pouco sobre este tema. O Ano Novo, queiramos ou não, vem num pacote fechado, imprevisível, ou será previsível? Uns dizem ser possível projetar os acontecimentos de acordo com o “andar da carruagem” do ano que está se despedindo, outros acreditam ser imprevisível uma vez que nada do que virá foi vivido ainda.
Na verdade, tudo vai depender do olhar de cada um. Os que o esperam carregado de boas surpresas possuem a esperança dos otimistas. Os que não o vêem assim fazem predições nada coloridas ancoradas nas mesmices já vividas, e pior, somadas às desilusões, pintam o rebento de negro.
Dessa maneira, o Novo para uns pode significar novas chances, novas mudanças, novas esperanças, enquanto que para outros, o Novo pode parecer velho, decadente e sem perspectiva.
Assim, depende de cada um de nós atribuirmos esta ou aquela cor ao NOVO que se inicia.
Diante disso, melhor ficarmos otimistas, pois o negativismo não contribui em nada para nossas vidas. Vamos esperar o melhor para 2008.
GenniGomes de Oliveira
FELIZ 2008 NOVO
CARNAVAL EM ILHABELA
É nesse o cenário que a vida é dez! Garotas lindas, em seus sumários biquínis, no “vaivém de seus quadris”, arrancam olhares e suspiros masculinos, postados como uma espécie de “júri”, que tudo vê por trás dos óculos escuros, expediente que lhes confere o anonimato confortável. A oferta é tanta que não convém dirigir-se a elas, e sim apreciá-las, uma a uma, nos seus predicados, trejeitos e artifícios. É o jogo da sedução.
A garota, em seu biquíni de poá azul e branco sobre a pele dourada, estende-se numa esteira de palha, seu território, e lá mexe e remexe o corpo com movimentos sensuais, na tentativa de colorir de sol o único pedacinho que ainda não fora beijado pelo astro rei. A mulata com olhos verdes, cabelos longos, desfila em uma tanguinha florida, vista de frente, porque por trás, coberta até a altura do bumbum com uma camiseta dobrada, tem-se a impressão que nada há por baixo. Parece ser exatamente essa a impressão que ela quer passar. Nessa arena, todas usam das armas que têm para se destacar. Não imaginam que já possuem todo enfeite necessário: a juventude.
Há uma ducha de água doce, por onde passa uma fila permanente de garotas que se molham para voltar ao sol e fixar o bronzeado. Um grupo de coroas posta-se ao lado delas para apreciar bem de perto aquelas belezuras, diante de tanta “carne firme” salivam mais que o próprio chuveiro. Um apreciador mais ousado chega a tocar o ombro de uma delas e tem como resposta um olhar fulminante, seguido de um “ Vê se se enxerga vovô”! Benditos óculos escuros que, naturalmente, nessa hora, escondem o apagar do brilho dos olhos daquele cinquentão. Mais reservado e mais prudente, um outro admirador, já longe dos seus anos “teens”, encorajado pelo mesmo expediente dos óculos escuros e pelo jornal aberto, que lhe cobre o rosto, bebe de toda beleza e sensualidade que invadem suas retinas, sem ser percebido.
Num espaço como esse, onde o lugar-comum é a pouca roupa, uma garota meio fora dos padrões de beleza reinante desfila na passarela do sol e consegue ter a atenção dos presentes pelo inusitado de seus trajes: vestido longo florido, lenço de cigana na cabeça pulseiras douradas, e brincos acompanhando o tom das pulseiras. É a guerra pela notoriedade.
Os garotos também se preocupam em se enfeitar na disputa acirrada pela sedução. A maioria deles usa chapéus, de diversos tipos, colares, pulseiras, brincos, cabelos compridos soltos ou rabos-de-cavalo. Sabem que também passam pelo crivo seletivo das garotas, em que alguns quesitos como alto, forte, musculoso, coxas grossas e ombros largos são dispensáveis.
Um moreno de porte atlético exibe uma filmadora “high tech”, de um lado para outro, arrebatando os olhares das ninfas, mas o que ele pensa estar exibindo em termos de “status”, não é, na verdade, objeto de admiração e sim o próprio porte físico.
Munidos de latas de cerveja, ou bebendo no gargalo das garrafas os garotos sentem-se mais seguros para lançar seus galanteios, no jogo da conquista.
Como uma “estranha no ninho”, desfavorecida pelo implacável caminhar do tempo, a “lady” recorre a um maiô verde- limão, com detalhes roxos, chapéu havana, óculos escuros estilo gatinho, brincos de argola dourados, e uma canga com cores que combinam com o conjunto. Não consegue convergir olhares, nem dos “garotos de outrora”. O tempo é implacável e deixa marcas indesejáveis.
Contrastando com isso tudo, há um outro tipo de desfile, dos que lutam pela própria sobrevivência: os vendedores. Cada um procura chamar a atenção dos veranistas, não pelo porte físico, bronzeado, ou pela beleza, mas sim para que comprem seus produtos, que lhes garantem o dia-a-dia. O vendedor de amendoins se enfeita com os favos, pendurando-os por entre os cabelos, formando uma cabeleira “black power”, e com o “slogan” “falta um amendoim aí para fazer sua felicidade!” ele caminha entre as belas, sem notá-las, olhos atentos nos fregueses. O sorveteiro, vestido de branco, suando em bicas, mas sorridente empurra o carrinho sem fazer propaganda. O próprio calor de 38 graus se encarrega disso. O que mais se destaca entre eles é o vendedor de cerveja e suco de laranja, um jovem bonito, forte, que usa uma série de artifícios para se fazer notar: óculos coloridos, brincos de argolas grandes, seios postiços, roupas coloridas, e com voz estridente berra a todo pulmão “Olha a lourinha aí gente! Vamos hidratar esse corpinho!” Além de distribuir simpatia, conversando e brincando com todos, o vendedor exibe uma resistência impressionante, ao caminhar pelas areias quentes, atendendo a todos até o último aceno do dia.
Dois públicos, dois propósitos diferentes, um servindo ao outro... igualam-se, por um momento, as classes sociais. Ao final da tarde, com muitas latas e garrafas vazias, a garotada enlouquece ao som da banda, ao vivo. A ordem é pular e pular. A pouca roupa lhes facilita os movimentos e então a brasilidade aflora, e a moçada mostra que não é “nem ruim da cabeça nem doente do pé”
Coroando toda essa alegria, o sol se põe devagarzinho, distribuindo seus raios dourados, já enfraquecidos, cansaços, sem o mesmo vigor da manhã, mas com beleza suficiente para derramar seus reflexos no mar, criando uma atmosfera mágica, um cenário perfeito para fechar em grande estilo o carnaval, nessa ilha da Fantasia.
JUVENTUDE
É um quadro digno de um pintor, construído pincelada a pincelada.
Quando desaparece, fica no ar um perfume de flores do campo que arrasta alguns seguidores mais afoitos. Certa de seu poder provocador, continua sua caminhada, já nem sabe mais para onde vai, mas isso pouco importa, o que vale é a alegria que espalha para os que podem ver e sentir.
É a juventude, predicado passageiro, mas que enfeita o mundo. É como um jardim com flores recém abertas, exalando cada uma o seu perfume característico e com muito apelo sensorial.
Zuleica é uma dessas flores, recém aberta, cheia de perfume e beleza. Saltita entre outras, nem tão perfumadas, já com menos cores em suas pétalas e com seus caules cansados de segurá-las. O tempo delas está passando e com isso tornam-se menos atraentes. E, por fim, há aquelas que já caíram, sem viço e sem nada. Mas Zuleica, no alto de seus 18 anos, não percebe o entardecer de suas semelhantes, vê apenas o raiar de um lindo sol brilhante, é o seu tempo que não passou ainda.
A juventude é tudo de bom, quando nela estamos mergulhados o tempo não conta, e a distância entre ela e o entardecer da vida parece imensurável. Por essa razão, Zuleica não entende o desfolhar de algumas flores que caem obedecendo ao tempo que já passou e, menos ainda, as que já cumpriram todas as etapas e se aquietam num canto qualquer.
terça-feira, 12 de agosto de 2008
FRANCISCA
Encosta-se ao balcão e pede uma das “fortes” ao atendente Zé das Abelhas, (tinha esse apelido porque quando criança teve um olho cegado por um enxame que o atacou ). O moço pára e, não acreditando no pedido, espera. “Vamos, a bebida”, insiste Francisca. O pobre Zé fica tão baratinado que precisa de um gole ingerido de uma só vez, para tomar pé da situação. Volta o olhar para a dama na esperança de que ela esteja apenas brincando ou coisa parecida, mas qual, Francisca bate com os punhos no balcão e ordena sem deixar dúvidas. “Das fortes”, eu disse vai atender ou não?” Com olhar suplicante “...o que eu faço agora?”, dirigido aos freqüentadores, Zé das Abelhas na sua simplicidade aproxima-se do balcão e, medindo as palavras, tenta desvendar o mistério daquele gesto tresloucado de tão respeitada dama.
Bem, gagueja o botequineiro, “...se a madame permite” “ Não permito nada...” Corta Francisca asperamente, equilibrando seu corpo, já fora de prumo, em direção a uma cadeira próxima. Esparrama-se nela soltando seu fardo sem controle. Zé das Abelhas se aproxima e procura ajudá-la a se ajeitar no assento. Entre soluços e copiosas lágrimas desnuda-se com palavras: “Tanta dedicação, amor, respeito, tudo, tudo jogado fora”. Olhar marejado, voz mole, continua... “Quando naquela noite o conheci mostrou-se um homem respeitável, palavras doces, flores, galanteios, sem sombra de dúvida, um apaixonado. Foi tudo tão rápido e envolvente que quando me dei conta já estava casada. O primeiro filho chegou num ambiente festivo que se repetiu com o segundo e com o terceiro”. Encosta a cabeça no primeiro apoio que encontra, descansa, enxuga as lágrimas.
Agora já um pouco refeita, Francisca endireita-se na cadeira, pede um copo de água e, sentindo-se compreendida, prossegue: “A vida seguia, negócios prósperos, crianças em boas escolas, missa aos domingos, festa no clube, vizinhos amáveis, férias na praia... tudo na mais perfeita ordem. Ordem que virou desordem em poucos minutos. O que fora construído durante anos de vida vai por terra sem vida. Dona Cândida, a vizinha da frente, sem soar como mexerico, tentou me avisar inúmeras vezes. Com palavras escolhidas contou-me uma história que achei absurda, hoje percebo que era minha própria história”.
Os fregueses do bar amontoam-se cada vez mais ao redor de Francisca, os que já estão lá e os que chegam, bebem suas palavras e esperam pelo desfecho. Empenhada em lhes contar tudo, e, sentindo-se entre amigos, prepara-se para continuar, mas de repente pára um carro de bacana, desce um rapaz trajando um uniforme azul e sem dizer palavra, a toma pelo braço e a leva embora. Francisca não reage, acompanha-o como um robô, sem vontade, sem comando próprio. Decepcionados, os fregueses do bar entreolham-se e em cada olhar fica uma indagação: “O que aconteceu com ela?”
Mais tarde um grande cortejo fúnebre, seguido por três viúvas trajando vestes pretas, cada uma acompanhada por dois filhos, atravessa a pequena cidade. Era o coronel Braga que tinha sido morto a tiros na madrugada daquele dia. Homem poderoso e importante tem um acompanhamento numeroso e a atenção de toda cidade. Destacando-se do cortejo, muitos passos atrás, vêm Francisca toda de branco e seus três filhos, sem luto, sem lágrimas e sem tristeza, já havia experimentado esses sentimentos mais do que o suficiente, nas últimas horas.
O CAMINHO DE UM JOVEM
Finalmente, numa madrugada quente, nasce o rebento! A expectativa, alegria e desejo contidos explodem em emoção ao receber aquele que foi gerado com tanto amor. Daniel, o nome já havia sido escolhido meses antes, chora com vigor, movimenta os bracinhos e como que reconhecendo aquela que o abrigara por nove meses sente-se protegido, e adormece.
Os primeiros anos foram traduzidos em alegria para os pais zelosos que sempre procuraram dar a Daniel uma boa alimentação, carinho e atenção. Com 7 anos começa sua trajetória educacional num colégio particular de uma cidade do interior. Era muito elogiado pelos professores e apresentava um boletim anual impecável, todo azul -notas boas, se vermelho seria o contrário. Os anos correm e Daniel termina o primeiro grau (hoje básico). “Temos que comemorar essas notas azuis durante todos esses anos!” Afirma o orgulhoso senhor Gustavo, pai do garoto. “Esse evento merece uma festa!” Reafirma o pai. Rita prepara então uma bela comemoração, convida os amigos de escola, parentes e amigos da família.
Foi uma noite memorável, até fogos de artifícios teve. O filho ganha muitos elogios e muitos presentes, entre eles, uma bicicleta, sonho acalentado por Daniel há algum tempo.
Foi uma verdadeira aventura dominar aquelas duas rodas em tão pouco tempo- um dia. Mas a vontade era tanta que o garoto logo se ajeita e tira os pés do chão, voa para a liberdade sentindo com maior prazer o vento em seu rosto, cada vez mais forte. Todos os dias, no período de férias antes de ingressar no segundo grau (hoje fundamental), Daniel conquistava mais territórios com sua bike. Menino ajuizado como sempre foi, deixava os pais tranqüilos quanto a seu comportamento.
O novo ano começa e a família aposta no bom desempenho do filho nessa outra etapa escolar, e mais, fazem planos, dão conselhos que carreira seguir para construir uma vida tranqüila e produtiva. Daniel concorda e promete seguir os caminhos que seus pais apontam com tanta sabedoria. Como dominava bem seu veículo de locomoção, o garoto teve permissão para ir às aulas com sua bike, sob forte recomendação, naturalmente. Assim foi feito.
O primeiro ano não foi tão brilhante. Houve umas notas vermelhas que destoaram escandalosamente das azuis, porém não dominaram o boletim inteiramente, a bem da verdade. Mesmo assim os pais, não acostumados com essa nova realidade, se inquietaram. Daniel as recupera e passa para o segundo ano com algum aperto. De uma maneira ou de outra, o caminho segue. No primeiro bimestre do ano seguinte, a cor vermelha apareceu mais cedo, junto com uma carta da direção pedindo o comparecimento dos pais na escola. Rita e Gustavo entraram em pânico, como? O que estava acontecendo com aquele amado filho? Entreolharam-se ao pensar juntos.
A volta da escola foi silenciosa, não se falaram não se olharam pareciam procurar, cada um de seu lado, o que faltou naquela construção que começava dar sinais de fragilidade. Teriam apontado ao filho um caminho muito sinuoso que o fez desistir de enfrentá-lo? Ou teriam indicado um largo demais, sem tropeços.
A voz da diretora ainda ecoava em seus ouvidos: “Daniel anda disperso, olhar distante e escapadas antes do término do período”. “Peço desculpas, mas tenho que alertá-los”, e continuou: “Como lidamos com jovens há muitos anos, conseguimos notar comportamentos que fogem aos padrões da normalidade, isto é, atenção, interesse e obediência”.
Já em casa, Rita e Gustavo esperam a volta de Daniel que havia dito que estaria estudando com amigos.
Ao interpelá-lo sentiram que seus olhos não os fitavam como era de costume. Havia certa indecisão, a espontaneidade havia desaparecido e sua voz não tinha a mesma assertividade de sempre. Esses sinais gelaram os pais. Logo veio o segundo sinal, a mentira. Após alguns questionamentos, pedidos e conselhos, os pais o cercam de atenção e carinho, na tentativa de trazê-lo para perto deles. O ano segue, os pais seqüestram a bicicleta e passam a acompanhá-lo para aula. Mas qual, quando termina o segundo bimestre vem a triste constatação, Daniel fica em dependência em seis matérias, ou seja, reprova o ano.
Rita adoece, Gustavo faz um esforço enorme para não bater no filho, mas ouve a mulher que acredita que uma medida drástica como essa só pioraria a situação. Há no semblante dos pais uma grande tristeza e uma grande dor ao entender e aceitar que seu filho fora ceifado pelas drogas.
Após um ano de internação Daniel retorna cheio de planos, está mais confiante e aparentemente mais saudável. Rita parece ganhar uma vida nova e espalha aos quatro cantos que seu filho vai retomar sua vida do ponto em que parou.
As festas de fim de ano foram comemoradas com mais sabor e muito amor. Um novo ano se inicia. Daniel volta às aulas termina o curso e se prepara para faculdade de medicina. Consegue uma vaga em uma universidade particular. Gustavo compra todos os livros que dariam suporte ao curso. O caminho de Daniel segue sem tropeços.
Algum tempo depois, no entanto, rapazes da mesma idade do filho começam procurar por ele em sua casa. Ao observar pela janela da sala de jantar Rita atenta para tais visitas e observa se são colegas da faculdade. Não são. Logo o resultado chega. Daniel abandona o curso depois de uma torrente de fracassos. Rita, como toda mãe, ainda acreditava que era um episódio passageiro e que seu filho poderia fazer outro curso, talvez mais ao gosto de Daniel. Gustavo mais razão e menos coração entende que estavam vivendo um drama que se delineava sombrio.
Hoje, passados cinco anos, Rita ainda espera por notícias do filho amado que abandonou os pais sem dizer palavras. Gustavo, na sua dor, se pergunta: “Por que esse mal que está destruindo os jovens de todo mundo não tem fim?”. Cansado e sentindo-se derrotado, olha a esposa e, juntos, exclamam: “A droga venceu”.
A DONA DO MOÇO
Com muita dificuldade anda a velha senhora. Tem as pernas tortas curvadas para dentro fazendo um meio arco, o resto do corpo acompanha essa curvatura tornando o andar trôpego e arrastado. Em função do problema do atrofiamento das pernas, no momento de solicitá-las, uma dor aguda se manifesta correndo corpo a fora.
A bengala providencial a ajuda na locomoção do velho fardo quando é solicitada a atender alguém na porta de sua casa. Tem também um leve problema de audição e quando os agentes de saúde vêm visitá-la precisam chamá-la mais de uma vez. Em razão disso ela precisa falar alto quando responde a alguém. A voz é estridente, o olhar é triste, misto de indignação e sofrimento, talvez pela sua condição. Raramente circula pelo quintal da casa e, quando o faz, é para apanhar a correspondência da caixa de correio colocada no portão da frente que fica sempre destrancado para facilitar o ir e vir.
Em sua companhia teve por muitos anos o marido. Homem de baixa estatura, comunicativo e cheio de vida. Embora já velhinho, atendia a esposa nas tarefas mais pesadas, fazia a feira, supermercado, a limpeza da casa etc,. Cuidava também de dois sabiás que tempos depois providencialmente os soltou, como devia ser.Não tinham cachorro porque o latido incomodava a velha senhora. Mas o cantar dos passarinhos não, embora ouvisse pouco, era lenitivo para seus ouvidos. Quando o marido os soltoou ficou triste, mas entendeu que era maldade mantê-los preso numa gaiola.
Juventino gostava de ficar no portão de casa apreciando o movimento e com isso conhecia muita gente da pequena cidade praiana onde morava. Dessa maneira, quando as pessoas passavam as chamava para "um dedo de prosa", como costumava dizer. Só que essa prosa podia se estender por horas a fio, dependendo da disponibilidade do transeunte. Falava alto e gesticulava ao mesmo tempo para melhor se fazer entender quando contava sua história, as dificuldades que vivera e as peças que a vida lhe pregara. Dizia que já tinha feito "de um tudo", expressão comum entre os habitantes do lugar. Já fora marinheiro - por isso ainda estava perto do mar - auxiliar de pedreiro, condutor de carrocinha, prestara serviços de transporte numa dada época e pescador. Ah! Essa era a atividade que mais lhe dava prazer. Vez ou outra aparecia em casa com um peixe grande e dizia que ele mesmo o tinha fisgado. Quem iria duvidar! Em seguida preparava-o e assava. Era muito bom nos dotes culinários e os utilizava há muito tempo, desde que sua esposa adoecera. Não tiveram filhos, desse modo, um se valia do outro para quase todas as questões. Em conversa com os amigos transeuntes sempre dizia que estava à disposição do Senhor. " Quando Ele precisar de um auxiliar para qualquer serviço lá no céu estou pronto para ir, até mesmo para Lhe preparar um bom peixe assado". Brincava.
Alguns dias antes do Natal de 2006, as pessoas, os mesmos transeuntes, continuavam passando pela mesma rua onde moravam Juventino e dona Idalina, mas com uma pressa desmedida, pois todos tinham muitas coisas para comprar, resolver, decidir antes da data mais importante do ano. Nessa pressa nem notaram que não estavam mais sendo solicitados para uma boa prosa com a velhinho da casinha azul. Não havia tempo para isso. Porém um transeunte mais atento, que já se considerava amigo do senhor, notou, certo dia, que o portão estava fechado e a casa silenciosa. O mesmo cenário se repetiu nos dias que se seguiram. Então, preocupado, resolveu averiguar se o senhor estava bem ou se havia viajado, dada à ausência notada.
Não havia campainha no portão, as repetidas palmas acordaram a velha senhora que descansava num momento de recolhimento. Como ouvia mal, levou algum tempo para que entendesse que se tratava de alguém solicitando sua presença. Com a dificuldade de sempre, apooiada na bengala, seu amparo, a senhora caminha devagar em direção ao portão. O corredor lhe parece interminável, mas com determinação encurta a distância passo a passo.
Um senhor com aparência amigável a espera no portão. Cumprimenta-a gentilmente e pergunta pelo velho bom de prosa. A senhora cambaleia, fica pálida e se apóia nas grades do portão para não cair. " O senhor não sabe? Ele foi embora, me deixou". Responde com voz estridente e embargada a velha senhora.
O amigo que quase que diariamente conversava com Juventino, ficou meio desconsertado sem saber se a afirmação "ele se foi, me deixou" seria uma separação de casal, ou se o senhor havia morrido.
Ia perguntar mais alguma coisa, mas a senhora sem dizer mais palavras, vira-se e empreende a penosa volta para casa com sua fiel bengala. Ainda meio confuso e bastante preocupado insiste e, antes que ela desaparecesse no fim do corredor, grita: " A senhoar tem filhos? Ficou sozinha?. "Não" Responde com voz chorosa a pobre mulher."Tenho o moço". E desaparece por uma porta lateral. "Bem", Pensou o amigo. Menos mal, naturalmente ela ficou amparada por alguém, algum sobrinho, um parente, ou quem sabe um filho, que deve ser esse moço a que ela se refere. Já estava se retirando quando a ouviu chamar com insistência: " Moço, moço, vem papá". "Deve ser um tratamento carinhoso que ela dispensa à pessoa que lhe faz companhia", conclui o amigo. Porém, o moço não atende ao primeiro apelo. A senhora continua chamá-lo para comer a refeição que havia preparado.
Como ela insiste sem sucesso, o amigo resolve voltar e verificar o que estava acontecendo, para em última instância, ajudá-la a localizar a pessoa que não atende aos apelos de uma voz desesperada. De repente, ouve: Ah! Você veio malandrinho, come aqui" Curioso o amigo se esgueira, sobe na grade do portão para, enfim, ver "o moço". Qual foi seu espanto quando um gato preto, com pelos ralos, meio coxo, sem raça definida, aparece miando, como que agradecendo a hospitalidade recebida e come com avidez o prato preparado com todo carinho para ele.
O amigo desce da grade com os olhos marejados e deixa o local.