terça-feira, 12 de agosto de 2008

FRANCISCA

Francisca caminha meio trôpega, parece bêbada, olhar no chão, passa pelo bar da esquina da avenida principal, deixando no ar uma essência longe de ser francesa. Os habitues a seguem com olhares indagadores. “ O que aconteceu com ela?” Fala o primeiro. “Tão fina!” Acrescenta o segundo. “Vai vê que se cansou da vidinha de madame” Alfineta o terceiro. Mas logo se calam, pois Francisca muda seu rumo e dirige-se ao bar, para espanto de todos.

Encosta-se ao balcão e pede uma das “fortes” ao atendente Zé das Abelhas, (tinha esse apelido porque quando criança teve um olho cegado por um enxame que o atacou ). O moço pára e, não acreditando no pedido, espera. “Vamos, a bebida”, insiste Francisca. O pobre Zé fica tão baratinado que precisa de um gole ingerido de uma só vez, para tomar pé da situação. Volta o olhar para a dama na esperança de que ela esteja apenas brincando ou coisa parecida, mas qual, Francisca bate com os punhos no balcão e ordena sem deixar dúvidas. “Das fortes”, eu disse vai atender ou não?” Com olhar suplicante “...o que eu faço agora?”, dirigido aos freqüentadores, Zé das Abelhas na sua simplicidade aproxima-se do balcão e, medindo as palavras, tenta desvendar o mistério daquele gesto tresloucado de tão respeitada dama.

Bem, gagueja o botequineiro, “...se a madame permite” “ Não permito nada...” Corta Francisca asperamente, equilibrando seu corpo, já fora de prumo, em direção a uma cadeira próxima. Esparrama-se nela soltando seu fardo sem controle. Zé das Abelhas se aproxima e procura ajudá-la a se ajeitar no assento. Entre soluços e copiosas lágrimas desnuda-se com palavras: “Tanta dedicação, amor, respeito, tudo, tudo jogado fora”. Olhar marejado, voz mole, continua... “Quando naquela noite o conheci mostrou-se um homem respeitável, palavras doces, flores, galanteios, sem sombra de dúvida, um apaixonado. Foi tudo tão rápido e envolvente que quando me dei conta já estava casada. O primeiro filho chegou num ambiente festivo que se repetiu com o segundo e com o terceiro”. Encosta a cabeça no primeiro apoio que encontra, descansa, enxuga as lágrimas.

Agora já um pouco refeita, Francisca endireita-se na cadeira, pede um copo de água e, sentindo-se compreendida, prossegue: “A vida seguia, negócios prósperos, crianças em boas escolas, missa aos domingos, festa no clube, vizinhos amáveis, férias na praia... tudo na mais perfeita ordem. Ordem que virou desordem em poucos minutos. O que fora construído durante anos de vida vai por terra sem vida. Dona Cândida, a vizinha da frente, sem soar como mexerico, tentou me avisar inúmeras vezes. Com palavras escolhidas contou-me uma história que achei absurda, hoje percebo que era minha própria história”.

Os fregueses do bar amontoam-se cada vez mais ao redor de Francisca, os que já estão lá e os que chegam, bebem suas palavras e esperam pelo desfecho. Empenhada em lhes contar tudo, e, sentindo-se entre amigos, prepara-se para continuar, mas de repente pára um carro de bacana, desce um rapaz trajando um uniforme azul e sem dizer palavra, a toma pelo braço e a leva embora. Francisca não reage, acompanha-o como um robô, sem vontade, sem comando próprio. Decepcionados, os fregueses do bar entreolham-se e em cada olhar fica uma indagação: “O que aconteceu com ela?”

Mais tarde um grande cortejo fúnebre, seguido por três viúvas trajando vestes pretas, cada uma acompanhada por dois filhos, atravessa a pequena cidade. Era o coronel Braga que tinha sido morto a tiros na madrugada daquele dia. Homem poderoso e importante tem um acompanhamento numeroso e a atenção de toda cidade. Destacando-se do cortejo, muitos passos atrás, vêm Francisca toda de branco e seus três filhos, sem luto, sem lágrimas e sem tristeza, já havia experimentado esses sentimentos mais do que o suficiente, nas últimas horas.

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