domingo, 9 de janeiro de 2011

O DRAMA DE UMA VIDA

MÃE! MÃE! MÃE! A voz de um rapaz às 6h30m quebra o silêncio de uma manhã chuvosa,
numa pacata cidade praiana. Após os primeiros gritos faz-se um breve silêncio e, novamente, os mesmos apelos são feitos, ora com voz alterada, ora com voz cansada e chorosa. A chuva é suave, mas persistente, dessas que molha devagarzinho até a alma. O tempo, mandatário da situação, passa bem devagar tornando os quinze minutos de espera eternos.
Uma senhora bem velha, cabelos brancos e meio arqueada caminha em direção da voz, vem de uma casa que fica nos fundos de um terreno grande, caminha devagar por entre as pedras que pavimentam a trilha. Apóia-se em uma bengala que lhe dá sustentação.
O rapaz, um homem feito, muito magro, rosto encovado e gestos imprecisos, caminha de um lado para outro impaciente, parece que tem algo urgente a resolver. Para ele, a distância é imensurável, a mãe nunca chega e volta a gritar: “Anda mãe, vem logo”.
Ao chegar perto do rapaz a velha senhora pergunta o motivo da urgência e da gritaria que ele está fazendo em frente ao portão de sua casa. “Eu tô com fome, a senhora não tá vendo? Preciso de dinheiro”. “Dinheiro eu não tenho, vou lhe arranjar algo para comer”, responde a senhora. “Mas mãe, eu preciso resolver aquele problema, me dá um dinheiro, qualquer coisa”. Volta a insistir o rapaz. “Não adianta, eu não tenho dinheiro”. Tenta convencê-lo a pobre senhora. O rapaz se enfurece e a chama de desalmada e outros adjetivos horríveis. Diante disso a mãe se volta e o deixa falando sozinho.
Nesse momento surge um jovem, que também mora no mesmo terreno- algumas pessoas moram nesse local, alugam quartos- e o enxota dali com um pedaço de madeira, e ameaça espancá-lo se ele não deixar o local. Diante disso ele vai embora falando coisas desconexas.
No dia seguinte, por semanas e meses, a cena se repete, pelo menos três vezes ao dia. Não há um horário estabelecido, ele aparece muito cedo como tarde da noite, sempre gritando e exigindo a presença da velha senhora que ele chama de mãe, mas na verdade, ela é sua avó. Com humor alterado, ora pede que ela venha atendê-lo com voz suplicante, ora volta a exigir aos gritos que ela lhe dê algum dinheiro, tornando-se agressivo diante de uma negativa. A avó, cansada e desolada, sentindo-se impotente, cede, frente aos argumentos do neto e lhe dá uns trocados, além da comida.
Essa situação se torna a regra, então ele passa a exigir dinheiro todas as vezes que ali vem para pegar o alimento. A cena é muito triste, um rapaz no auge da juventude, no auge da força de trabalho, transformado em farrapo humano. Do outro lado, uma senhora idosa, merecedora de descanso pelos anos vividos sofre com a decadência do neto.
Alguns dias se passam, depois semanas e por fim, meses. Não se ouve mais a voz do pedinte. A velha senhora vai por vezes ao portão, mas o neto não aparece. A droga venceu. A mesma que está exterminando com uma geração de jovens em todas as partes do mundo.

Um comentário:

Cristiane Campos disse...

Muito boa mamy, uma realidade que somente quem vivencia pode ser capaz de dimensionar o sofrimnento desta mãe.